O título do artigo não é mero acaso, numa alusão ao filme A Complete Unknown, biópico de Bob Dylan, de quem sou profundo admirador. Ignorando se a excêntrica estrela da folk music tem interesse por apostas ou se alguma vez se sentou frente a um ecrã a jogar, restrinjo-me àquilo que efetivamente sei: os portugueses jogam e apostam mais a dinheiro atualmente do que em qualquer outro período da nossa história.
O universo do jogo online ultrapassou, pela primeira vez, a fasquia dos 15 mil milhões de euros em apostas, facto que lhe valeu um artigo no jornal Público, derivado dos mais recentes dados publicados pelo Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ). Existem vários fatores que ajudam a explicar esta popularidade e apontarei os que me parecem mais relevantes nas próximas linhas.
PUBLICIDADE IMPIEDOSA A SITES DE CASINO E ÀS APOSTAS
Não uso o termo de forma leve: a publicidade a plataformas de jogo tornou-se uma constante, ao ponto de originar vários debates acesos nas comunidades locais. Os portugueses sempre tiveram apetência pelo jogo, mas no panorama digital, ele já não existe somente em cafés e quiosques: entra-nos pela casa adentro sem pedir licença.
É até irônico que mencione licença, pois também os sites de jogos ilegais continuam a ter um impacto considerável no nosso mercado, um fenómeno transversal à regulamentação existente em outros países. Aqui, múltiplas operadoras contornam os mecanismos existentes para aliciar os portugueses. Sendo o quotidiano cada vez mais presente dentro de portas e a Internet a nossa ligação ao mundo exterior, o que nos sobra?
Campanhas publicitárias constantes que visam atrair novos (e já existentes) jogadores às plataformas nacionais. Internet, televisão, patrocínios desportivos e artigos patrocinados canalizam milhares de indivíduos em busca da emoção que lhes parece alheia no mundo real.
O excesso publicitário normaliza marcas e jogos no quotidiano nacional e é raro o amigo ou familiar que não se permita uns instantes para fazer uma aposta no clube que vai jogar naquela tarde, ou rodar uma slot para matar tempo na sala de espera.
Neste ponto, gostava de ver maior e melhor ponderação. Mais importante: que perceção têm os menores desta aparente normalização? Deixo-vos a questão, enquanto reflito sobre a mesma.
O JOGO ILEGAL CONTINUA A PROSPERAR
Já o mencionei brevemente e considero-o um dos principais problemas do mercado global de jogo. Várias operadoras atuam frequentemente de forma predatória e à margem da lei. Impedidas de angariar novos clientes pelos meios tradicionais e legais, contornam todas as regras e ética para chegar a todo o lado.
São diversos os casos de influencers pagos para publicitar sites de apostas sem licença no país, anúncios colocados em distintas plataformas online, e uma total inexistência de responsabilidade ou ética nestas abordagens. Também aqui existe uma desresponsabilização por parte dos gigantes das redes sociais, com políticas que visam somente o lucro, blindadas por termos e condições que raramente defendem o interesse do consumidor.
Jogar num site sem prova de maioridade é fácil. Ser um jogador problemático e ter acesso a programas VIP que visam montantes de apostas elevadíssimos? Igualmente fácil. Aceder a jogos sem algoritmos auditados? Todos estes riscos estão à espreita em operadoras que se defendem com licenciamento internacional, mas o qual de pouco ou nada vale no momento de fazer cumprir os mais básicos princípios legais.
Conheço representantes que promovem as suas plataformas ilegais em mercados regulados, como o português. Os mesmos que aliciam jogadores problemáticos ou que se escusam a pagar ganhos, deixando-os sem qualquer suporte legal válido, num comportamento que ultrapassa a simples falta de ética: é e deve ser considerado crime, mas como agir fora da nossa jurisdição?
Compactuar com estas plataformas que se estima representarem cerca de 41% do mercado (dados da APAJO) é o cerne do problema. Este fator é ainda mais grave quando consideramos que são os mais jovens (18-24 anos e 25-34 anos) os principais utilizadores.
SUGESTÕES DE MELHORIA E MODERNIZAÇÃO EM PORTUGAL
Como profissional no setor de iGaming, mas também como pai e cidadão, preocupa-me que o crescimento do jogo em Portugal não seja acompanhado de medidas eficazes de mitigação e jogo responsável. É fácil deixarmo-nos seduzir por um setor que move mais de 5% de toda a riqueza produzida no país. A sua influência não deve ser um veículo de desresponsabilização e livre acesso a todos os segmentos da sociedade. A título pessoal, preocupa-me constatar que uma grande percentagem dos novos jogadores é jovem.
Muitos destes novos jogadores surgiram durante o boom da pandemia, duplicando o volume global de apostas e elevando os novos registos para 33,1% do total registado até o último trimestre de 2024. O segmento dos 18 aos 34 anos representa agora mais de metade dos novos registos, bem como do total de jogadores registados.
Sem surpresas, o número de jogadores autoexcluídos tem aumentado de forma consistente. É expectável que mais jogadores ou apostadores resultem em números de autoexclusão em concordância. Num universo de mais de 4,7 milhões de registos, 29 mil autos excluíram-se por tempo determinado e 263,4 mil por um período indeterminado.
O foco deve permanecer nestes indivíduos, com a implementação de mecanismos de monitorização de jogo seguro, inclusive com recurso a soluções de inteligência artificial. Urge identificar e antecipar comportamentos desviantes, bem como educar o público para o real funcionamento dos jogos e apostas, com destaque para os seus riscos.
O DESAFIO DA ÉTICA DIANTE DO VOLUME DE NEGÓCIOS
A onipresença de marcas de apostas no futebol e basquetebol nacional não as deve isentar de responsabilidade. Se algo, exige-se mais, melhor e de forma ágil. Basta uma rápida visita às lojas online dos principais clubes para encontrarmos camisolas oficiais infantis com as mesmas marcas que promovem apostas online e jogos de casino.
Não foi por acaso que a Premier League baniu os patrocínios das marcas de jogo nas camisolas dos clubes. Uma ação que não impediu as mais de 29.000 mensagens publicitárias num único fim de semana no início da época 2023-2024. Onde a indústria de jogo quer e a lei permite, surge sempre uma fórmula dada a exageros.
PORTUGAL, UM MERCADO DE JOGO EM MATURAÇÃO
Perto de completar uma década, o mercado de jogo online regulado português encontra-se em plena fase de cruzeiro. Ainda que algumas operadoras de grande dimensão tenham abandonado o nosso país, como a Betway, a diversidade atual é mais que suficiente para as necessidades da maioria dos jogadores nacionais. Infelizmente, os motivos que levam milhares a procurar entretenimento em operadoras ilegais persistem: uma proposta de jogo com limitações, ofertas de bónus com termos menos apelativos e plataformas que nem sempre primam pela modernidade do design ou recursos oferecidos.
Gostaria de testemunhar uma mudança de paradigma, com o tráfego que vai para operadoras ilegais a optar pela alternativa de uma operadora legal em Portugal. Os jogadores não deveriam ficar confortáveis com os riscos existentes, nem com o facto de estes casinos online e sites de apostas lesarem o próprio erário público em milhões de euros. Se o momento atual nos convida à reflexão e a apostar mais no desenvolvimento do nosso país, urge considerar como positivo jogar e apostar em Portugal, não obstante as limitações das nossas plataformas legais, nem escusando as marcas de jogos de maior responsabilidade social.








