Ela defende firmemente a necessidade de integração de minorias, a equidade de gêneros, a paridade salarial e a igualdade de acesso a cargos de gerência.Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Desde criança, Lucília Fernández tem uma relação muito próxima com o entretenimento. Ela afirma isso quando conta: “Uma das minhas memórias mais agradáveis da infância foi a de ter ganhado o meu primeiro computador aos 4 anos de idade, isso em 1996. Desde então, a minha relação com jogos e tecnologia foi sendo construída durante a vida inteira. Com 5 anos de idade eu já ganhava competições com players adultos em alguns jogos como Street Fighter e The King of Fighters.
Logo, foi desenvolvendo e alimentando essas aptidões digitais, “criando um hiperfoco em hobbies com jogos de tabuleiro, jogos eletrônicos, universo nipônico (mangás e animes) e cultura geek”. Em 2007, entrou na faculdade com apenas 15 anos de idade, e nessa época já era fundadora e líder de um grupo gamer composto por 200 jogadores online espalhados pelo Brasil inteiro. Foi em o game Grand Chase da empresa sul-coreana KOG, uma das maiores desenvolvedora de videojogos, que na época sustentava um número expressivo de até 200.000 (duzentos mil) jogadores online”.
Em seu rol, Fernández expressa: “Sendo a líder, mantive a administração desse grupo por alguns anos, construí fluxos de requisitos para o ingresso de membros e até cheguei a cobrar assinatura mensal, considerei ser o meu primeiro emprego e toda essa dedicação fez com que conquistássemos o título do grupo que estava no 1º lugar no ranking de pontos do servidor brasileiro em 2011/2012”. O sonho da infância em continuar com o segmento de jogos se manteve ativo na sua vida adulta, e agrega: “Eu me sinto realizada de fazer parte do universo do iGaming regulamentado brasileiro”.
RECOMPENSA DE VIVER NO MUNDO DIGITAL
Há um caminho gradual e constante que explica como esta profissional destacada chegou à sua empresa atual como Gerente de Produto do Grupo Aposta Ganha. Em suas palavras: “Participei de diversas implantações digitais antes de ir atuar diretamente com o iGaming, e já trabalhando na área de produto digital em outros projetos (eu atuava como Product Owner em uma empresa de Sistema Tributário e outra empresa de iCommerce), fui convidada pelo Grupo Aposta Ganha a participar da seleção para Product Owner”. Ela avalia: “Para mim, foi quase que uma recompensa agradável por ter vivido uma vida inteira dedicada a amar o universo iGaming e gaming presencial”.
Claro que nem tudo foram rosas, pois ela também revela como era o ambiente na época que teve um final positivo. “O cenário era bem desafiador, pois a empresa necessitava de um perfil profissional que, além de contribuir com a regulamentação brasileira e construção de um produto com uma nova identidade visual, ainda estávamos diante de um prazo legal super crítico e com normas exigentes, o que no fim acabou dando super certo e consegui contribuir com os objetivos dos projetos desafiadores”, diz.
MAGIA GAME E CULTURA CUSTOMER CENTRIC
Mas o que há na indústria dos jogos que atrai e a fez dedicar-se a este mundo? Com a palavra, a própria: “Além de sempre ter sido uma jogadora, sei que existe uma magia no digital, a sensação de poder materializar ideias em produtos e ver os usuários finais satisfeitos”.
Nesta cultura customer centric, tendo como prioridade atender as necessidades e expectativas dos jogadores, ela explica que sua motivação é poder unificar projetos construindo produtos aos quais possa agradar diversos perfis diferentes, e apresentá-los ao universo digital.
POSICIONAMENTO AUTÊNTICO E RESPONSABILIDADE SOCIAL
Sobre a crescente integração de minorias em empresas de jogos, ela é reveladora e autêntica. “Como mulher lésbica e autista, considero de extrema importância a necessidade de integração de minorias, seja em empresas de jogos ou qualquer outra área digital. Tenho um senso de responsabilidade social muito elevado nesse sentido, e me sinto responsável em compartilhar minhas experiências e inspirar pessoas que possam estar inseguras sobre começar suas carreiras. Nada deverá ser um limitador ou justificativa de incapacidade laboral; pelo contrário, pessoas que sofrem dificuldades sociais são em grande maioria, pessoas talentosas que se reprimem socialmente por insegurança, por medo de julgamentos ou por terem acreditado a vida inteira em um capacitismo discriminatório”, afirma com convicção.
as questões de equidade de gêneros, paridade salarial e igualdade de acesso a cargos de gerência, Fernández tem uma visão positiva e promissora. “A equidade de gênero é algo mais alcançável agora no século 21. Mesmo sabendo que ainda existe uma dificuldade nesse sentido, percebo que é significativo o número de empresas que estão se atualizando e inserindo essa nova cultura de paridade salarial e igualdade. Considero ser um avanço enorme para que se torne uma realidade cada vez mais comum”, diz, e cita como exemplo sua própria trajetória.
“Inclusive, no projeto atual, fui a primeira e única mulher Product Owner contratada, e em menos de um ano promovida a Product Manager, assumindo um cargo de estratégia e liderança, o que pode inspirar outras mulheres a saber que sim, existe um espaço e se você se esforçar, poderá conquistá-lo”, planteia.
ACREDITAR EM SI MESMA E QUERER DAR CERTO
Qual conselho ela dá às jovens que querem entrar na indústria dos jogos? “O conselho que eu posso dar a elas é, não desistam. Não importa se você tem prejuízos sociais, se precisa de suporte em sua vida pessoal/profissional, ou se acha que deve entender de cálculos absurdos e linguagens de códigos, realmente isso não importa para que você seja um profissional ou líder bem-sucedido”, assegura. Para Lucília, o que realmente importará é sempre a dedicação, e principalmente, crer em você mesmo e na sua capacidade de querer fazer dar certo, porque segundo ela: “Quando você acredita em si mesma, não existirá limites aos quais você será incapaz de alcançar com humildade”.
Quanto às suas qualidades profissionais ela traça uma autoanálise clara: “Sempre fui muito organizada e analítica por causa do meu hiperfoco e afinidade com a cultura ‘workaholic’, em todas as atividades laborais que já atuei. Ela considera que a sua maior qualidade profissional é a paixão que injeto nos projetos em que atue. A minha satisfação pessoal se mescla com a profissional, pois me sinto gratificada por querer contribuir com os sucessos dos projetos ao qual me dedico”.
Incluso, a executiva agrega: “Além disso, sempre tive uma vocação em liderar pessoas e organizar fluxos, o que considero ser uma base para o sucesso de qualquer projeto a curto ou longo prazo, pois sem organização não é possível analisar os fatores que são necessários para alcançar melhorias e evoluções, e sem as pessoas como colaboradores de um objetivo maior, nenhuma conquista seria alcançada.
AUTOANÁLISE, OPINIÃO DE COLEGAS E APOIO DA FAMÍLIA
Ela olha para dentro de si e acredita que é vista: “Eu creio que a maior qualidade que devo exercitar e alimentar em mim é o entendimento de que as pessoas devam vir sempre antes da tecnologia, ou seja, de que sem o bem-estar dos liderados não existe liderança, e não existem resultados”. Quando perguntada sobre como seus colegas de trabalho a descreveriam, a executiva é sincera: “Acredito que a visão que têm de mim é de ser uma mulher com personalidade forte, organizada e exigente, que entrega resultados e que sabe como organizar e liderar um time”.
Adicionando também a pergunta de quais aspectos de sua personalidade que seus amigos e familiares destacariam, Lucília diz que eles sempre acreditaram muito nela o seguinte: “Me veem como uma resolvedora de problemas, uma pessoa que eles sabem que podem contar nos momentos bons e ruins. Acredito que por não medir esforços para vê-los felizes, ele bem em me ter por próximo, é o que me faz feliz também: Amar e ver pessoas felizes”.
Como esta profissional prodígio equilibra o seu tempo entre vida pessoal e vida profissional? Que hobbies e interesses tem fora do escritório? Ela responde: “Amo viajar e conhecer culturas novas. Tenho uma visão de vida nômade: já morei em SP, em SC, na BA, no Chile, etc. No demais, gosto de ir a livrarias aos finais de semana, ler livros com temáticas náuticas ou arqueológicas”, reconhece.
Até mesmo descobrimos que sua rede social favorita é o LinkedIn, que de acordo com ela: “Eu acesso todos os dias e gosto de estar conectada com o mundo digital/tecnológico/corporativo”. Mas sem deixar para trás suas antigas paixões: “Eu continuo jogando games online, de diversas plataformas diferentes, sendo console, PC ou Mobile”.
CONVITES VINDOS DE UM MERCADO PROMISSOR GLOBAL
Para ela, suas perspectivas para os próximos dois anos, projeto pessoal ou profissional tem a ver com aprofundamento. Ela postula: “Pretendo me aprofundar cada vez mais no iGaming, tendo em vista que é um mercado promissor e com bastante espaço sendo criado não somente no âmbito brasileiro como também global”.
Finalmente, ressalta os convites recebidos: “Só esse ano já fui convidada por outras cinco empresas para atuar em cargos de liderança em projetos de iGaming, o que corrobora a importância e escalabilidade do setor. Então, pretendo focar em um plano de carreira no projeto atual, e concluir outra pós-graduação e em seguida o mestrado internacional em inteligência artificial”.
Em uma linha
Um livro: “Eram os Deuses Astronautas?” (Erich von Däniken, 1968)
Um filme: “Cast Away (Náufrago)” (Robert Zemeckis, 2000)
Música favorita: ‘Change the world’ (Inuyasha)
Um perfume: ‘Colônia Seiva de Alfazema Lavanda Extra
Um lugar que viveria: Galícia, Espanha
Um lugar para passar férias: Tokyo, Japão
Um lugar para sair para jantar: ‘Foodlays’ (Chile)
Uma comida: Malassado de ‘Filé Mignon Fernandez’
Uma bebida: água
Um esporte: Esports, first person shooters
Um professor ou referência em sua vida: Jesus Cristo










