
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
No dia 7 de outubro, ocorreu o CBE 2025, onde você foi o mediador do painel “Poder público e incentivos governamentais: o que muda no jogo?”. Qual a importância deste evento e qual é, de fato, o papel do poder público nos Esports?
O Congresso Brasileiro de Esports foi um marco histórico. Pela primeira vez, reunimos em um mesmo espaço representantes do mercado, das federações, da academia e do poder público para discutir, de forma madura e propositiva, o futuro dos esportes eletrônicos no país. O papel do Estado é garantir estrutura, segurança jurídica e fomento sustentável. O Esport não é apenas entretenimento; ele é educação, cultura, inovação tecnológica e economia criativa. Quando o poder público reconhece essa dimensão, cria-se um ciclo virtuoso: mais políticas de incentivo, editais, formação profissional, programas de integridade e investimentos em infraestrutura. O Estado brasileiro não precisa “reinventar a roda” no contexto dos esportes eletrônicos, mas é urgente desenvolver um Censo Nacional de Esports, capaz de mapear a realidade da modalidade nos mais de 5 mil municípios do país. Não podemos continuar criando políticas públicas sem dados concretos, e muito menos sem metas objetivas e mensuráveis. Eventos como o CBE 2025 e o recente encontro entre a comunidade dos esportes eletrônicos, o diretor de Esport do Ministério do Esport e o gestor de Esports olímpico do Comitê Olímpico do Brasil, no COB Expo no dia 27 de setembro, em São Paulo, são fundamentais para promover a escuta ativa e o diálogo institucional, abrindo caminho para que os esportes eletrônicos sejam tratados como política de Estado, e não apenas como promessas em período eleitoral.
Qual é o panorama atual das parcerias e vínculos internacionais para fomentar os Esports brasileiros e latinos?
O Brasil vem se posicionando de forma estratégica no cenário internacional, mas ainda é necessário consolidar uma cultura de boas práticas de governança e integridade nos esportes eletrônicos. Na América Latina, há muito a ser feito. Falta uma estrutura sólida de cooperação regional que una federações, governos, mercado, pesquisadores e universidades. O Congresso Brasileiro de Esports foi, inclusive, inspirado no Congresso Esports Argentina 2025, realizado em Buenos Aires e organizado pela Cámara Argentina de Deportes Electrónicos (CADE). Outro grande exemplo na América do Sul foi a criação na UADE (Universidade Argentina da Empresa) do curso de Licenciatura em Esporte Eletrônico, o que demonstra amadurecimento institucional da Argentina. A CADE nasce da formalização de encontros entre organizações e equipes argentinas que decidiram criar um espaço comum de representação, defesa de interesses e promoção de boas práticas, abordando temas legais, contábeis e sociais, sempre com foco na profissionalização e sustentabilidade da indústria. Em agosto de 2025, a Colômbia reconheceu oficialmente os esportes eletrônicos como esporte. Com a aprovação da Lei 2507, o Congresso colombiano concedeu aos esportes eletrônicos o mesmo status legal dos esportes tradicionais, integrando-os oficialmente ao Sistema Esportivo Nacional. As iniciativas da CADE, da UADE e do Congresso Nacional da Colômbia precisam ser replicadas no Brasil e em toda a América Latina. Competir é importante, mas cooperar é essencial para o crescimento do ecossistema, garantindo segurança jurídica, integridade esportiva e a formação das próximas gerações. O futuro dos esportes eletrônicos está na diplomacia esportiva, promovendo intercâmbio de atletas, capacitação técnica, compartilhamento de dados e políticas conjuntas. Mais do que competir globalmente, precisamos cooperar regionalmente, consolidando os esportes eletrônicos como vetor de desenvolvimento, inclusão e inovação social.
Os videogames já foram reconhecidos como manifestação cultural pelo Ministério da Cultura. Em que patamar está a regulação dos Esports no Brasil e o que ainda falta para avançarmos?
Esse reconhecimento com o Marco Legal dos Games é um grande avanço histórico, mas o Brasil ainda carece de um marco regulatório próprio para os esportes eletrônicos. Temos legislações importantes, como a Lei Geral do Esporte (14.597/2023) e a Lei das Bets (14.790/2023), que abrem espaço para debates sobre governança, transparência e repasses de recursos. No entanto, ainda falta uma Política Nacional de Esports, capaz de integrar cultura, educação, tecnologia, trabalho e integridade em uma mesma agenda. Na Câmara dos Deputados, existe uma Subcomissão Especial de Esportes Eletrônicos dentro da Comissão de Esporte, mas ela ainda não apresentou um cronograma de trabalho para 2025. Esse é o fórum mais democrático, representativo e adequado para debater a elaboração de um Marco Legal dos Esports e a criação de uma Política Nacional de Integridade para os Esportes Eletrônicos. Nas audiências públicas no Congresso Nacional, com participação de publishers, atletas, organizações, projetos sociais, confederações, federações, pesquisadores, realizadores de eventos, fãs, investidores e toda cadeia produtiva dos esportes eletrônicos são a garantia da construção de um ambiente mais participativo e sustentável. Um avanço relevante no Brasil ocorreu em julho de 2024, quando o Ministério do Esporte criou a Diretoria de Esport, com a missão de formular e implementar políticas públicas específicas para o setor. Desde então, o Ministério firmou convênios com universidades públicas e privadas para oferecer 10 mil bolsas de estudo na modalidade EAD, voltadas à formação de jovens em gestão esportiva, tecnologia e inovação nos esportes eletrônicos. Ainda precisamos evoluir em temas como direitos trabalhistas dos atletas, responsabilidade das publishers, tributação, integridade competitiva e proteção de menores. Mas esse primeiro passo institucional já representa uma mudança de paradigma. Os esportes eletrônicos deixam de ser apenas um fenômeno econômico e social para se consolidarem também como política pública estratégica. É o momento de o Brasil liderar esse debate com seriedade, transformando entusiasmo em estrutura e talento em legado para o seu desenvolvimento no Brasil a partir deste ano 2025.
Como você enxerga as perspectivas dos Esports para o futuro no Brasil e na América Latina?
O futuro da América Latina é jovem, digital e criativo e os esportes eletrônicos estão no centro dessa transformação. A região conta com mais de 650 milhões de habitantes, marcada por uma juventude altamente conectada e uma indústria que cresce em ritmo superior à média global. O Brasil é o maior mercado da região e o 12º do mundo, com organizações competitivas, arenas consolidadas e comunidades vibrantes. Nosso desafio é transformar potencial em política pública e talento em legado. Precisamos construir integração regional, criando uma identidade latino-americana dos esportes eletrônicos, com valores próprios, cooperação científica e intercâmbio cultural. Em 2024, foi lançada a Revista Brasileira do Desporto Eletrônico, periódico científico multidisciplinar que já recebeu mais de 20 artigos sobre o tema. Um ano depois, realizamos o Mapeamento das Publicações sobre Esportes Eletrônicos, que catalogou mais de 160 publicações entre artigos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, livros e relatórios. O movimento acadêmico da Revista impulsionou a criação da Rede Lusófona de Pesquisadores em Esportes Eletrônicos (RELUPE), que conecta pesquisadores de países de língua portuguesa e demonstra como a cooperação científica internacional pode fortalecer o desenvolvimento sustentável do setor também no eixo sul-americano. O caminho para o desenvolvimento dos esportes eletrônicos na América Latina passa pela valorização da pesquisa acadêmica alinhada às demandas do mercado, pela inclusão social de jovens em situação de vulnerabilidade por meio de projetos baseados nos esportes eletrônicos, e pelo engajamento do poder público. Esses são fatores determinantes para planejar e desenvolver a modalidade na região.







