UM PASSO HISTÓRICO
A Convenção de Macolin, criada em 2014 e em vigor desde 2019, é o primeiro tratado internacional voltado ao combate à manipulação de resultados esportivos. Seu nome vem da pequena cidade de Macolin, na Suíça, sede do Instituto Federal Suíço do Esporte, onde o texto foi negociado e adotado.
Macolin estabelece uma rede internacional de cooperação entre governos, entidades esportivas e também operadoras de apostas, reconhecendo que estas últimas são peças-chave no compartilhamento de dados e na detecção de padrões suspeitos que possam indicar manipulação de competições esportivas, com foco na troca de informações, e monitoramento de riscos. A proposta é simples e poderosa: crimes que atravessam fronteiras só podem ser enfrentados com cooperação global.
Em setembro de 2025, o Brasil formalizou seu pedido de adesão. O movimento é um marco histórico para a integridade esportiva nacional, colocando o país ao lado de cerca de 50 signatários que já reconhecem a importância de atuar em rede.
MACOLIN CONTRA O MERCADO ILEGAL E A MANIPULAÇÃO ESPORTIVA
Assinar a Convenção é apenas o começo. O verdadeiro desafio é transformar o compromisso em prática cotidiana. Isso porque o mercado ilegal de apostas é, hoje, um dos principais vetores de risco para a integridade esportiva.
Estima-se que, enquanto o Brasil conte com cerca de 180 sites autorizados ou em processo de autorização, existam mais de 18 mil sites ilegais em operação. Esses números não são apenas estatísticas: refletem a dimensão de uma concorrência desleal que mina a confiança do mercado regulado, facilita práticas criminosas e coloca atletas, dirigentes, técnicos e árbitros em posição vulnerável diante de aliciamentos.
O mercado clandestino atua sem mecanismos de compliance, monitoramento ou auditoria, criando espaço para manipulações coordenadas e esquemas internacionais de lavagem de dinheiro. É nesse ponto que Macolin se mostra essencial: a Convenção oferece uma plataforma para conectar reguladores, órgãos públicos e operadoras de apostas com entidades esportivas, abrindo espaço para que clubes, atletas e associações de classe também sejam engajados na construção de um sistema colaborativo capaz de reagir de forma rápida e efetiva.
O impacto da falta de integridade e da presença do mercado ilegal atinge todo o ecossistema esportivo e de apostas, refletindo-se diretamente na experiência e na confiança dos apostadores:
- Clubes têm sua credibilidade questionada, perdendo valor de mercado e confiança de patrocinadores, o que fragiliza a competição como um todo.
- Atletas sofrem com propostas ilícitas e riscos à carreira, sendo alvos fáceis para esquemas que tentam manipular resultados em troca de ganhos rápidos.
- Operadoras sérias enfrentam concorrência desleal, já que seguem regras de compliance, monitoramento e auditoria, enquanto o mercado clandestino age sem controles.
- Meios de pagamento ficam expostos a riscos reputacionais, podendo ser usados inadvertidamente por plataformas ilegais e perdendo a confiança dos consumidores.
- Torcedores passam a desconfiar da legitimidade do espetáculo, vendo o esporte não mais como um palco de mérito e competição justa, mas como um ambiente sujeito a manipulações.
- Apostadores têm sua confiança abalada, pois deixam de acreditar que o jogo é limpo; isso os expõe ao risco de cair em plataformas ilegais, com prejuízos financeiros, ausência de garantias e até vulnerabilidade a golpes.
Por outro lado, quando o mercado regulado atua em conjunto com reguladores e sociedade, como propõe Macolin, cria-se um ciclo virtuoso de confiança, proteção e valorização do esporte.
A LIÇÃO DE MACOLIN
Um dos maiores problemas históricos no enfrentamento ao crime é a sua natureza reativa. Em qualquer setor, inclusive no esportivo, as organizações criminosas costumam se movimentar primeiro. Como destacou recentemente Giovanni Rocco Neto, Secretário Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte, a manipulação de resultados é um crime transnacional, o que exige cooperação e troca de dados de inteligência entre países. Na prática, isso significa que governos e reguladores não podem agir apenas após as consequências, mas precisam antecipar-se com mecanismos de prevenção e coordenação internacional.
A experiência internacional demonstra que repressão isolada não basta. Derrubar sites ilegais ou restringir canais de pagamento é necessário, mas limitado. Enquanto isso, o crime organizado busca novas rotas, plataformas e métodos para se manter ativo.
A grande lição de Macolin é a de reforçar a necessidade de atacar as causas e não apenas os efeitos. Isso passa por:
- Educação e conscientização de atletas, dirigentes e árbitros sobre riscos de manipulação.
- Capacitação técnica de autoridades e profissionais do ecossistema para identificar padrões suspeitos em apostas e movimentações financeiras.
- Troca de informações em tempo real entre países, já que o crime não respeita fronteiras.
- Engajamento do setor privado, incluindo operadoras, patrocinadores e meios de pagamento.
No Brasil, a agenda regulatória 2025/2026 da SPA já sinaliza a importância de investir em mecanismos de integridade, monitoramento e prevenção. A adesão a Macolin deve ser vista como oportunidade para acelerar e alinhar essa agenda ao padrão internacional.
UM ECOSSISTEMA QUE DEVE PULSAR INTEGRIDADE
Integridade não pode ser tratada apenas como uma obrigação regulatória ou um checklist de conformidade. É, na verdade, um valor estruturante que deve pulsar em cada partida, em cada operação e em cada decisão.
Quando a integridade é negligenciada, o impacto negativo reverbera em todo o ecossistema:
- Clubes perdem reputação e valor de mercado.
- Investidores recuam diante da insegurança.
- Apostadores migram para plataformas ilegais.
- Patrocinadores evitam associações com competições suspeitas.
- A sociedade passa a questionar a legitimidade do esporte como bem cultural e econômico.
A implementação efetiva da Convenção de Macolin é, portanto, um compromisso coletivo. Ela vai muito além de atender exigências regulatórias: trata-se de proteger o esporte, valorizar as empresas responsáveis, blindar os atletas e devolver confiança à sociedade.
A assinatura brasileira em 2025 foi um passo histórico, mas o futuro depende da capacidade de transformar o tratado em prática coordenada e permanente. O desafio é fazer com que a integridade não seja apenas promessa, mas fundamento real de um novo modelo de apostas e de esporte no Brasil.
Ser compliance, e não apenas estar compliance, é o que permitirá ao país reduzir a força do mercado ilegal, combater manipulações e consolidar um mercado justo, transparente e sustentável.








