
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Como começou seu trabalho como influencer e como você se envolveu na questão de jogos e apostas?
A gente começou o trabalho em 2023. Eu não trabalhava como influenciador antes. Tinha uma carreira normal, dentro de empresa, mas o que é que aconteceu? Eu vi exatamente que existia uma quantidade absurda de influenciadores que faziam comunicações de marketing que a gente considerava predatório para o público, ensinando estratégias que não condizem com a realidade, prometendo ganhos em algo que sequer é um investimento ou uma fonte de renda. Na verdade, é só uma forma de entretenimento, obviamente, com interesses financeiros por trás. Então, o Daniel Fortune nasceu. Em primeiro lugar, para educar os jogadores para que eles tivessem acesso à verdade, à realidade do jogo. Em 2023, trabalhamos muito forte na desmistificação de teorias e mentiras e eu diria até mesmo golpes, que eram aplicados no mercado, para que o público, com a informação, não fosse mais vítima e pudesse tomar decisões mais sábias, tanto até se vai realmente continuar jogando ou não. Existiam promessas de ganho garantido. Se jogasse em horário específico, numa plataforma específica, num jogo específico. O público compartilhava muito o nosso conteúdo porque desmistificava esse tipo de golpe, e aí a gente cresceu a ponto de chegar aonde está hoje. Temos como objetivo a educação dos jogadores, nunca mudou, mas como agora a gente tem um pouco mais de relevância, também tentamos ser exemplo pros outros comunicadores, influenciadores, de que é possível você trabalhar de forma honesta, focada no público, preocupado com a saúde mental dos seus jogadores, sem estímulo em excesso, para que eles possam tomar boas decisões, caso decidam jogar. No nosso projeto, a gente tem o apoio de duas associações: o Instituto de Apoio ao Apostador, e a EBAC, que treina tanto a mim quanto a uma equipe de suporte que eu tenho que lidar com os jogadores para identificar casos de jogo problemático. O nosso objetivo é identificar os jogadores quando eles entram em jogo problemático para imediatamente fazer um acompanhamento, que é gratuito para o jogador, através do nosso projeto, e aí ele é tratado via psicólogo. Isso foi que fez com que o nosso projeto hoje chame a atenção, principalmente das operadoras, que veem como um exemplo a ser seguido, até para os outros influenciadores.
O Brasil esteve, até um ano atrás, sob um mercado totalmente cinza, não regulado, onde justamente existiam esses tipos de utilização de influenciadores, como você bem citou. Qual a diferença atualmente, e se há alguma legislação específica que poderia citar, que fez todo o diferencial, nesse momento, para um influenciador se vincular a uma empresa de jogos e apostas?
Com a legalização, nós tivemos dois marcos jurídicos no Brasil que fizeram, de fato, a diferença. A primeira foi a própria Lei 14.790, de 2023, aprovada e sancionada no dia 31 de dezembro de 2023, uma data comemorativa no mercado. Com isso, a comunicação foi, de fato, regulamentada. Então, os excessos que acontecem na comunicação dos influenciadores agora são responsabilidade direta das operadoras e das casas, podendo gerar multas que vão de uma advertência até a maior por comunicações incorretas que não condizem com a verdade. O que fez com que a área de compliance das operadoras tivesse que se desenvolver e os cassinos online acompanharem o que é que os influenciadores estão falando. Então tem esse instrumento que é a própria lei, mas também tem o Anexo X do CONAR, que o CONAR é responsável por fiscalizar também os influenciadores e as propagandas em geral. O Anexo X é um guia, que nós temos que saber, nós que trabalhamos com divulgação de casas de apostas, temos que ter na alma, porque ele coloca todos os limites de comunicação que os influenciadores têm que seguir para que eles não sejam autuados. Independente da punição governamental, o CONAR tem poder para, junto das redes sociais, por exemplo, tirar o perfil da pessoa do ar. Então, ou um conteúdo específico, um tráfego pago. Hoje, o Anexo X e a Lei 14790 são a base jurídica para limitar e controlar a comunicação dos influenciadores.
Qual o alcance que você, como influenciador, pôde perceber desde que começou e qual a estimativa estatística de quantas pessoas você já conseguiu influenciar positivamente, ou uma métrica para exemplificar?
Como na nossa operação, embora não seja exigido por lei, a gente faz esse acompanhamento com psicólogos de graça para o público. Como é que funciona? Só para explicar, tem duas formas. A gente identifica que você, através de um comentário, um direct que você me mandou no Instagram ou alguma coisa que você comentou na live, você pode estar com problema no jogo. Eu, ou a minha equipe, vamos falar contigo no teu privado, perguntar se está tudo bem e oferecer se não quer conversar com o psicólogo gratuitamente, só pra ver se está tudo bem. É a forma que nós consideramos ativamente, e óbvio, se a pessoa quiser, ela tem diversos meios de contatos nossos para poder relatar o que aconteceu e receber acompanhamento. Temos uma média de cento e cinquenta, e varia, de atendimentos mensais. Meu objetivo é que elas tenham consciência e tomem boas decisões.
Temos a Copa do Mundo, que vai ser uma grande plataforma de jogos. Como você vê o futuro dos jogos e apostas junto aos influenciadores, de médio a longo prazo?
Médio a longo prazo, é, na verdade, o número de influenciadores aptos a participarem do mercado que tem se afunilado. Você precisa ser muito mais profissional, você tem que ter um cuidado com a comunicação, que pode te gerar problemas contratuais com muito mais facilidade. Então a gente vê diminuir o número de influenciadores que, de fato, podem trabalhar com as casas. O critério das plataformas para ter influenciadores trabalhando e divulgando, tem crescido todo santo dia. Tudo que eu falo é dentro de um mercado legalizado, de que foi regulamentado, mas infelizmente dependendo da fonte, aqui no Brasil de 50% a 60% da fatia do mercado é de mercado ilegal, então por mais que exista toda essa preocupação com o jogador, ensinar o jogo responsável, prevenção de ludopatia, é dentro da fatia do mercado regulamentado. Aí quando a gente observa o que acontece no ilegal, é o exato oposto. Então continua sendo extremamente predatório, com promessas de ganhos, vendido como fonte de renda, não como entretenimento. Mas o Governo é um exemplo legal, e lançou a ferramenta de autoexclusão unificada, onde você cadastra o seu CPF e ele obriga que todas as plataformas legalizadas do país não deixem você jogar. Porém, você consegue jogar numa plataforma ilegal. Hoje, como embaixador do jogo responsável no país, que é o que a gente gostaria de ser e dar o exemplo, é fazer com que os jogadores pelo menos saibam a diferença de uma legalizada para uma ilegal. A gente precisa de tempo para reverter as consequências negativas do que foi feito no período cinza, ausente de regulamentação.







