
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Explique um pouco da natureza da SIGA, um órgão independente e global, a sua missão e responsabilidades no mundo do esporte.
A SIGA é a maior e mais representativa coalizão independente, à escala mundial, no campo da integridade no esporte. Trabalhamos em prol de um esporte íntegro, transparente e credível. A nossa visão é reformista e assenta no mais evoluído conjunto de Standards Universais em cinco grandes áreas, todas elas interligadas: boa governança no esporte; integridade financeira e transparência; integridade e apostas esportivas; esporte de base e proteção de jovens; e, finalmente, ambiente, sustentabilidade e responsabilidade social. A adoção destes Standards é fundamental para que o esporte e as suas organizações sejam reconhecidos como idóneos e mereçam a confiança dos torcedores, dos patrocinadores, dos Governos e da sociedade em geral. Através do nosso Sistema Independente de Rating e Verificação (SIRVS), fazemos a avaliação de quem efetivamente cumpre e de quem apenas apregoa, mas não cumpre. Tudo isto se aplica também ao setor das apostas esportivas. Através do SIRVS, apuramos o grau de compliance das organizações esportivas aos Standards, o que resulta, nos casos positivos, na certificação nível bronze, prata ou ouro. A SIGA oferece a estratégia e o antídoto para que a indústria do esporte possa restaurar sua reputação, salvaguardar a sua credibilidade e manter a confiança do público.
Qual é a sua avaliação após sete anos à frente da entidade?
A SIGA é criação intelectual minha. Não há sete, mas há dez anos. No dia 31 deste mês celebramos o oitavo aniversário enquanto organização com personalidade jurídica. Olhando para trás, seria terrivelmente ingrato não sentir orgulho da obra feita e ter confiança no futuro. O trabalho que, com o apoio de nossos membros, parceiros e equipe temos vindo a fazer, e as reformas que temos vindo a imprimir falam por si. Pusemos a Integridade no topo da agenda, afirmámos uma nova cultura, mobilizámos os stakeholders, pusemos em práticas soluções e não nos poupámos a esforços. Entre membros, parceiros e apoiadores, envolvemos nesta caminhada mais de 200 organizações. Ao longo dos anos, temos alcançado várias conquistas. A criação e implementação do SIRVS é uma elas, permitindo-nos avaliar e certificar diversas organizações esportivas em diferentes partes do mundo. A SIGA também avançou em parcerias estratégicas com governos, federações esportivas e empresas privadas, promovendo ações concretas para enfrentar problemas como a manipulação de resultados e garantir a sustentabilidade do esporte. Criámos um programa líder à escala mundial de promoção da liderança feminina no esporte. No contexto brasileiro e latino-americano, inaugurámos nossa estrutura continental há cerca de três anos, com sede em São Paulo. Desde então, realizámos eventos de alto nível com o nosso membro São Paulo Futebol Clube, assinámos acordos com o Governo Federal e entidades relevantes do setor esportivo, e participámos ativamente de processos decisórios significativos sobre o esporte brasileiro. Com este intuito, estamos envolvidos no corrente processo de regulamentação do setor de apostas, defendendo a preservação da integridade no esporte. Estamos também elaborando o Estudo Independente sobre Futuro do Futebol no Brasil. Sim, os avanços são significativos, mas os desafios permanecem.
Por que a SIGA fechou parcerias com a Confederação Brasileira de Futebol e o Ministério da Fazenda em prol da integridade esportiva? Que objetivos vocês buscam atingir com esses acordos?
As parcerias firmadas com a CBF e o Ministério da Fazenda, por meio de sua Secretaria de Prêmios de Apostas, são essenciais e refletem o nosso compromisso em unir esforços com as principais entidades do esporte e do Governo para enfrentar os desafios relacionados com a integridade no esporte. A SIGA e a SIGA LATIN AMERICA estão 100% empenhadas em colaborar com o Governo brasileiro neste objetivo comum de tornar a integridade das apostas esportivas um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento saudável e sustentável deste setor e, por conseguinte, para a economia brasileira e global. A colaboração com o Governo tem sido francamente positiva. Por meio deste marco fundamental, daremos junto ao Governo uma resposta proativa à expansão do mercado de apostas esportivas no país, fortalecendo a regulamentação e reforçando a confiança do público e a credibilidade do setor. Em 2024, criámos o Comitê Permanente de Integridade nas Apostas Esportivas, que apoia diretamente o desenvolvimento e a implementação das melhores práticas. Além disso, realizamos eventos públicos de conscientização e capacitação, abordando as ameaças à integridade esportiva e promovendo o diálogo com stakeholders do setor.
Como vê o tema da manipulação de resultados no esporte e quais aspectos fundamentais de governança e medidas para combater essas e outras ilegalidades?
A manipulação de resultados é um desafio crítico que ameaça a integridade e a credibilidade do esporte em todo o mundo. Temos visto, em diversas ocasiões, como a falta de regulamentação adequada e de supervisão efetiva pode facilitar a infiltração criminosa. A SIGA acredita firmemente que a integridade deve estar no centro de todas as operações esportivas, e isso inclui combater a manipulação de resultados com medidas proativas e eficazes. A manipulação afeta a essência do esporte, e é por isso que a SIGA tem como missão garantir que todos os agentes do esporte, sem exceção, reconheçam esta ameaça e ajam em conformidade ao seu impacto. A educação sobre os riscos associados à manipulação e a promoção de uma governança transparente são passos essenciais para garantir que o respeito pela integridade do esporte seja sempre uma prioridade.
Como analisar a situação atual do futebol no Brasil e seus desafios no país? Como você acha que o cenário das apostas regulamentadas se desenvolverá?
O futebol brasileiro está numa encruzilhada. Tem qualidade e um potencial de desenvolvimento enorme, mas, em muitos aspetos, está atrasado e enfrenta sérios desafios. Cumprindo sua missão de zelar pela integridade esportiva e promover o desenvolvimento do esporte, a SIGA está empenhada em concluir o Estudo Independente sobre Futuro do Futebol no Brasil, encomendado pela Frente Parlamentar pela Modernização do Futebol. Por meio dele, e com a participação ampla dos principais stakeholders nacionais, este Estudo Independente fornecerá ao Congresso um diagnóstico rigoroso e neutral sobre o estágio atual do futebol brasileiro e proporá as reformas adequadas para garantir que o futebol dê o salto qualitativo de que está à espera há mais de 20 anos e é capaz de se desenvolver de forma sustentável. Em relação ao setor de apostas, depois de termos assistido ao deserto jurídico, à terra de ninguém e uma certa “corrida às armas” por parte das operadoras de apostas, tentando segurar contratos de patrocínio com organizações esportivas, estamos numa fase de regulação. Até à efetiva regulamentação do setor, o país viveu um período de “anarquia”. Com a assunção de responsabilidades por parte do atual Governo e a decisão de dar caráter prioritário a regulação do setor, esse crescimento “selvagem” está agora entrar num período de legalização, através das várias etapas legislativas que o Governo traçou. Devo dizer que o Brasil tem se revelado uma experiência legislativa mais bem-sucedida do que, por exemplo, os Estados Unidos. Não tenho problema em elogiar a opção legislativa seguida no Brasil, na expectativa de que ela continue a manter o bom rumo. Este é, pois, um momento crítico, que requer um esforço conjunto de todos os envolvidos, e que a SIGA está comprometida em apoiar, garantindo que a integridade continue sendo uma prioridade.









