
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Conte um pouco sobre sua trajetória no setor, como foram seus primórdios, e os desafios que enfrentou.
Minha jornada no setor de iGaming começou em 2007, quando me mudei para Dublin, na Irlanda, para integrar a equipe da Sportingbet, ainda antes de sua aquisição pelo grupo GVC (hoje Entain). A empresa buscava profissionais nativos do português do Brasil para fortalecer seu atendimento ao cliente. Entre 2008 e 2010, atuei no Full Tilt Poker, onde rapidamente fui promovido a Fraud Cashier Team Leader, uma experiência fundamental que moldou minha visão sobre risco e operações. Em 2010, mudei-me para Londres e iniciei uma nova fase na PokerStars, inicialmente como Senior Risk Investigator e, posteriormente, como Payments Manager. De 2016 a 2018, atuei no white label TGP – The Gaming Platform, onde conheci a dinâmica de empresas menores e multi-marcas, além de iniciar meu envolvimento com Prevenção à Lavagem de Dinheiro (AML), área que começava a ganhar força entre os reguladores, especialmente no Reino Unido. No final de 2018, fui contratado pela então GVC como AML Manager em Gibraltar. Em 2020, ingressei na Lottoland, onde permaneci até 2022, quando decidi retornar ao Brasil. Já no Brasil, atuei na BetBRX até seu encerramento em 2023, por motivos internos da direção. Em seguida, colaborei com a BetSpeed até abril de 2024, quando fui convidado para liderar as áreas de Risco e Prevenção à Lavagem de Dinheiro na PlayPix/Dupoc, com foco total na regulamentação prevista para janeiro de 2025. Em dezembro de 2024, a PlayPix/Dupoc foi adquirida pelo grupo BetCo, passando a operar como VBet Brasil, onde atuei até julho de 2025. Foi então que recebi o convite de Stephen Crystal para um novo e promissor desafio: liderar a SCCG Brasil, com o objetivo de tornar a empresa um dos principais players do iGaming no país, replicando o sucesso internacional da marca. Ao longo dessa trajetória, enfrentei inúmeros desafios: mudança de país, idioma, cultura e, muitas vezes, de modelo de negócio. Mas em cada fase, mantive uma postura de aprendizado constante, dedicação e paixão pelo que faço. Busquei sempre crescer, contribuir e aprender com cada experiência.
Com sua experiência no setor, qual o comparativo que você poderia delinear com o processo de regulamentação brasileiro com o de outros países? Algum país em especial, ao seu ver, poderia ser um exemplo que o Brasil poderia seguir?
A regulamentação do iGaming no Brasil é, sem dúvida, um passo crucial no processo de maturação do setor. Entretanto, ela chega com um atraso de pelo menos uma década. Quando entrei no setor, em 2007, o mercado global era majoritariamente considerado um grey market. Operávamos com licenças internacionais, geralmente emitidas pela Isle of Man ou Gibraltar, com escopo global. Com o tempo, países como Reino Unido, França, Itália, Malta, Espanha e Bélgica passaram a adotar modelos próprios de licenciamento online, percebendo que o jogo online poderia ser uma importante fonte de receita por meio de taxas, impostos e licenças. O Reino Unido, por exemplo, sempre esteve na vanguarda, com o setor de jogos físicos regulado desde 1960 através do Gambling Act. No Brasil, o primeiro marco legal surgiu com a Lei 13.756/2018, sancionada ainda no governo Temer, que legalizou as apostas de quota fixa. No entanto, a legislação pecou pela falta de experiência técnica dos assessores envolvidos. Separar apostas esportivas do cassino online foi um erro estratégico: o cassino é, na prática, o principal gerador de volume e receita para as operadoras. Diante dessa brecha jurídica, surgiram as primeiras operadoras nacionais, em um mercado ainda dominado por grandes corporações como Entain, Flutter e a gigante Bet365. Outro grande desafio do período foi a dificuldade para realizar pagamentos. A verdadeira revolução veio com o Pix, em 2020. Com o crescimento desordenado, vieram os problemas. Influenciadores passaram a promover o jogo como fonte de renda fácil, sem responsabilidade. Empresas sérias, que seguiam boas práticas, perderam espaço para operadoras oportunistas. Muitos dos responsáveis por sua elaboração -reguladores, assessores e servidores públicos- não possuem vivência no dia a dia de uma operação de iGaming. Isso explica a quantidade de decisões desconectadas da realidade do setor. Parece que o foco do Ministério da Fazenda está desalinhado. Enquanto o ministro discute aumentos de carga tributária para operadoras reguladas, uma grande parcela do mercado segue nas mãos de empresas ilegais. De qualquer forma, eu acho que o Brasil tem todos os ingredientes para se tornar um dos grandes players do iGaming no cenário global. Mas é fundamental que avancemos com responsabilidade, respeitando as etapas necessárias e aprendendo com as experiências internacionais. Não podemos colocar o carro na frente dos bois.
Quais são os desafios e as possíveis soluções para prevenir a lavagem de dinheiro nas apostas esportivas?
A regulamentação das apostas esportivas no Brasil trouxe avanços importantes, mas também acentuou a necessidade de atenção a um tema crítico: a prevenção à lavagem de dinheiro. Em um cenário de rápida digitalização, informalidade econômica e inovação constante, os desafios para garantir integridade financeira no setor são significativos, mas não intransponíveis. Os principais desafios: a grande informalidade ainda presente na economia brasileira dificulta a rastreabilidade da origem dos recursos utilizados em apostas. Muitos usuários não possuem histórico financeiro formal, o que complica os processos de verificação de identidade e origem de fundos. O sistema de pagamentos instantâneos, apesar de seus inúmeros benefícios, permite movimentações em alta velocidade e grande volume, dificultando o monitoramento eficiente e a detecção de transações suspeitas em tempo real. O uso de ativos digitais (cripto) fora do escopo regulatório representa um risco adicional. Operadoras offshore que aceitam criptomoedas sem o devido controle de compliance podem facilitar a conversão e ocultação de valores ilícitos. O combate à lavagem de dinheiro nesse setor exige uma atuação coordenada entre operadoras e reguladores. Ambos têm responsabilidades distintas, mas complementares. As operadoras devem realizar uma implementação de KYC robusto, um monitoramento contínuo com IA, uma limitação de contas e escalonamento de apostas, e uma capacitação constante das equipes. Quanto os reguladores, a regulação precisa ser realista, técnica e adaptada à atualidade brasileira, contemplando especificidades do setor. Também, é importante a colaboração com instituições como COAF e SPA. Os órgãos reguladores devem atuar como centralizadores das informações enviadas pelas operadoras, dando continuidade à análise de transações suspeitas e promovendo ações corretivas quando necessário. A prevenção à lavagem de dinheiro nas apostas esportivas é um desafio técnico, regulatório e operacional. No entanto, com um ambiente regulado, tecnologia apropriada e cooperação entre todas as partes envolvidas, é possível construir um ecossistema mais seguro, transparente e confiável para operadoras, apostadores e para o Estado brasileiro.
Poderia revelar quais as parcerias estratégicas que a SCCG pretende fazer nos próximos meses e os planos para 2026 no Brasil?
A SCCG Global já está em conversas avançadas com potenciais parceiros estratégicos. Embora ainda não possamos divulgar nomes, acreditamos que até o final de 2025 e ao longo de 2026, anunciaremos colaborações relevantes com grandes players do mercado brasileiro.







