
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Sabemos que as políticas de compliance são fundamentais nas empresas. No caso do segmento de jogos e apostas, não é diferente. Sendo um profissional desta área, como define a atuação da companhia neste aspecto, em comparação com outras do sector no Portugal?
Sendo um regulamentado de forma tão estrita, com diversas particularidades que o distinguem, inclusive de outros mercados europeus, a função de Compliance e respectivas políticas tornam-se fundamentais. Do mesmo modo, creio que atualmente, com o maior amadurecimento desta jurisdição, a atuação dos diferentes operadores acaba por ser relativamente semelhante, com meras diferenças pontuais. Estas diferenças acabam por resultar não só do apetite de risco de cada empresa, mas também da forma como se querem posicionar no mercado e o seu tipo de cliente alvo.
Como você vê a transformação digital no Compliance, quais benefícios ela possibilita, e como contribui para o segmento na detecção de irregularidades e de comportamentos de risco dos jogadores quanto ao jogo responsável?
Acredito que a transformação digital, em especial a dos anos mais recentes, com a massificação da IA e do machine learning, é extremamente benéfica não só na área de Compliance, mas para a indústria no seu todo. Com a utilização adequada e bem configurada de diversas ferramentas, torna-se possível escalar fortemente as análises feitas à atividade nas contas de jogador, não apenas em termos de volume, mas também de celeridade, o que é fundamental. Ainda assim, é fulcral que tais ferramentas estejam devidamente preparadas para a finalidade a que se propõem, e para as especificidades de cada caso e as suas nuances. Cada jogador é um indivíduo específico, com as suas características intrínsecas e tem de ser considerado como tal. É necessário que os sistemas utilizados estejam aptos e
devidamente munidos da informação necessária e relevante para o efeito, sem cair num cenário de demasiada informação, que acaba por ser reduzir a eficácia, ou mesmo entrar em conflito com a legislação sobre proteção de dados.
Quanto ao processo de regulamentação das apostas no Brasil, você teria como fazer um comparativo com Portugal?
É sempre interessante observar um país novo a regulamentar a área do jogo, especialmente neste caso por se tratar do Brasil, dadas as ligações históricas entre os nossos países. No caso particular, torna-se também atrativo pela perspetiva das diferenças culturais, de hábitos e de preferências entre os dois povos e a maneira como isso vai moldar a regulamentação. Numa primeira análise, de forma mais generalizada, vejo com apreensão algumas alterações e mudanças de posição na regulamentação. Regulamentação é algo que se pretende sempre que seja estável, pelo que alterações súbitas, especialmente em questões estruturais como segmentos inteiros, ou a parte fiscal, podem tornar-se prejudiciais na atração de operadoras que queiram entrar no mercado. Este último ponto torna-se ainda mais impactante no processo decisório dados os comparativamente elevados custos para obtenção da licença. Por outro lado, é valioso ver a postura forte com que o jogo responsável está a ser abordado, logo desde o início, o que é sempre positivo para a proteção dos jogadores. Mais recentemente, levantou-me algumas questões a proibição da utilização de cartões de crédito, para depositar nas contas de jogador, não só pela abrangência, mas também pela eficácia. Em suma, creio que é um mercado que devemos estar atentos e é sempre apaixonante analisar as diferentes abordagens à regulamentação que cada país toma, com o intuito de também podermos aprender algo e colher boas práticas.
O panorama dos casinos online em Portugal está em franco crescimento. Como imagina o futuro do Compliance nesse cenário e tendências possíveis diante da inovação constante no sector?
A área de Compliance está também em evolução e com capacidade de acrescentar cada vez mais valor às operações e contribuir para a inovação. Exemplo disto é a transformação digital, com modernos recursos para o Compliance, que temos vindo a assistir nos últimos anos. Até a área jurídica, tradicionalmente conservadora, também está se voltando para a inovação. Esperemos que o rumo se mantenha, pois acredito na influência muito positiva que a área de Compliance tem para gerar. Em suma, vejo com bons olhos o futuro do Compliance nas empresas do segmento de jogos e apostas, acrescentando valor e inovando, nomeadamente quanto à detecção de irregularidades e de comportamentos de risco por parte dos jogadores, contribuindo ainda mais para um ambiente saudável, tanto para as operadoras como para os jogadores.







