
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
A FPDE foi constituída em 2016. Qual a sua avaliação, desde o surgimento da entidade e o cenário dos desportos eletrónicos daquela época, à atual conjuntura?
A FPDE nasceu a 26 de fevereiro de 2016 a partir de uma necessidade genuína da própria comunidade: criar uma entidade independente que ajudasse a estruturar, regulamentar e desenvolver o ecossistema dos desportos eletrónicos em Portugal. Em 2016, falávamos de um movimento predominantemente amador, alimentado pela paixão de quem estava ligado à cena desde o final dos anos 90. Não havia reconhecimento público, não havia financiamento estrutural e havia uma enorme fragmentação, com muitos desacordos entre clubes, organizadores de torneios, etc. A evolução foi gradual, mas consistente. O ponto de viragem mais significativo aconteceu em 2024, quando Portugal alcançou o segundo lugar mundial na competição masculina de Counter-Strike 2 e o terceiro lugar na competição feminina no World Esports Championship, em Riade, garantindo um prémio total de $70.000. Estes resultados não surgem do acaso, mas de um trabalho sério desta direção com um investimento em estrutura de bases, apoio dos associados, formação e representação nacional e internacional. Em paralelo, formalizámos, nesse mesmo ano, a nossa parceria estratégica com a Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, culminando no lançamento do primeiro Laboratório de Investigação em Esports da história de Portugal, o que representa uma mudança de paradigma: passámos de um movimento comunitário para um setor com validação científica. Nesse mesmo ano, fizemos rastreios médicos a atletas de Esports na Taça de Portugal de Esports 2024, mais uma iniciativa nunca antes vista em Portugal. Na mesma prova, outra iniciativa nunca feita em Portugal, a primeira competição exclusivamente dedicada a atletas femininas. Em 2025, consolidámos ainda mais esse caminho: a Taça de Portugal de Esports tornou-se o maior evento de desportos eletrónicos alguma vez organizado em Portugal, com 10 modalidades distintas, 66 clubes, 458 atletas e 43 treinadores, e um valor de premiação total superior a €10.000. A distância percorrida em dez anos é, francamente, notável.
Como é atualmente a regulamentação dos Esports em Portugal?
Esta é, provavelmente, a questão mais crítica para o futuro do sector. Atualmente, não existe uma prática estruturada e regulamentada no que se refere a elementos fundamentais, como contratação e transferência de jogadores entre equipas e ligas, acompanhamento do desenvolvimento dos atletas, ou normas gerais de convivência no mercado do desporto eletrónico em Portugal. Mais importante ainda, não existe qualquer norma em torno da proteção de menores. Esta ausência tem consequências concretas: ambiguidade jurídica nos contratos entre clubes e atletas, evasão fiscal (porque os rendimentos de competições e patrocínios frequentemente não têm enquadramento legal claro), e uma exposição injusta de todos os participantes, dos atletas aos árbitros, a situações de exploração. A falta de regulamentação contribui ainda para uma oportunidade inteiramente desperdiçada no contexto das apostas desportivas: os portugueses apostam em Esports, mas em plataformas sediadas fora de Portugal, resultando em perda de receitas para clubes, atletas e para o próprio Estado. Em termos de enquadramento europeu e internacional, o contraste é evidente. Em 2023, a Suécia tornou-se o primeiro país da UE a reconhecer oficialmente os Esports como desporto, e em setembro de 2025, a Alemanha adotou o estatuto de organização sem fins lucrativos para entidades de Esports, abrindo caminho a benefícios fiscais e apoios públicos reservados ao desporto. Portugal acompanha estas discussões, e em julho de 2024, a FPDE participou ativamente na primeira conferência parlamentar realizada na Assembleia da República Portuguesa, dedicada ao reconhecimento oficial dos desportos eletrónicos, representando-se em seis dos oito painéis temáticos. Este foi um momento histórico e um sinal claro de que o debate político chegou para ficar. Aproveito para informar que, na semana passada, fomos novamente recebidos pelos Grupos Parlamentares dos Partidos Iniciativa Liberal (IL) e Partido Social Democrata (PSD – o Partido do Governo), e ficou acordado que ainda este ano o Projecto Lei dos Esports será apresentado na Assembleia da República para discussão e, esperamos nós, aprovação! No ano em que a FPDE assinala o seu 10° aniversário, os Esports serem finalmente reconhecidos como um desporto em Portugal seria o presente ideal!
Qual foi a movimentação financeira registrada no mercado português de Esports em 2025?
Até o momento, não existe um indicador consolidado único para o valor de negócio exclusivo de Esports em Portugal. No entanto, os números de setores relacionados e projeções anteriores permitem delinear a movimentação financeira. Antes de 2025, o mercado de videojogos em Portugal já apresentava uma trajetória de subida, com receitas estimadas em cerca de US$ 258 milhões para 2024 e uma taxa de crescimento anual superior a 11% até 2027. A realidade é que Portugal, precisamente pela ausência de regulamentação, não dispõe de dados consolidados e transparentes sobre a movimentação financeira total do setor, e isso é, em si mesmo, um argumento central para a necessidade de regulamentação. Sabemos que o mercado global de Esports tem projeções de gerar entre US$ 3.700 e US$ 4.800 milhões em 2025, e Portugal, com mais de 1,2 milhão de potenciais praticantes competitivos estimados, representa um mercado interno com expressão significativa e ainda largamente inexplorado. No que respeita à FPDE, os dados de 2024 (os mais recentes publicados nos nossos relatórios oficiais) são reveladores de uma transformação profunda. As receitas cresceram de €2.500 em 2023 para €68.568 em 2024, representando um crescimento de 2.643%, com um resultado líquido positivo de €8.687 e fundos patrimoniais que passaram de negativos para €7.059 positivos. É um progresso extraordinário, que reflete o aumento da atividade competitiva, o estabelecimento de parcerias estratégicas e a crescente credibilidade institucional da Federação.
Quais as perspectivas e tendências do futuro dos Esports?
O momento que vivemos é único na história dos Esports. O Comité Olímpico Internacional anunciou em 2024 a criação dos primeiros Jogos Olímpicos de Esports, representando um marco histórico no reconhecimento da modalidade. Vivemos uma convergência histórica entre o movimento olímpico e a competição de alta performance em desportos eletrónicos que não tem precedentes. Em termos de tendências, destacaria três: o crescimento dos Esports mobile, que democratiza o acesso à competição; a crescente integração dos Esports em contextos educativos e de saúde, onde a investigação científica começa a fundamentar abordagens sérias de bem-estar para os atletas; e a profissionalização progressiva dos clubes, que começam a funcionar com modelos de negócio mais sustentáveis. Para 2026, a FPDE tem um programa ambicioso. Do ponto de vista competitivo, a Taça de Portugal de Esports em finais de maio, no Fundão, será o maior evento de sempre, com 15 competições previstas em 13 modalidades e um alcance esperado de mais de 1.000 participantes. Um objectivo claro é ter um alcance de audiência na casa dos 2 milhões, superando o 1.5 milhão de 2025. Do ponto de vista institucional, estamos a trabalhar em três frentes prioritárias: a aprovação do Projecto Lei dos Esports em 2026, a obtenção do Estatuto de Utilidade Pública Desportiva até ao junho de 2026, e a conquista de um parecer preliminar do Comité Olímpico de Portugal sobre a nossa filiação no COP. São marcos que definirão a legitimidade institucional dos Esports portugueses para a próxima década. A nossa visão é clara: posicionar Portugal como referência europeia em competitividade, inovação, integridade e inclusão nos Esports até 2030. Não é um slogan; é um plano estruturado, com cronograma, indicadores de desempenho e financiamento detalhado, que pode ser consultado aqui. Portugal tem talento, estrutura e história competitiva para justificar essa ambição. O que precisamos agora é do reconhecimento que essa ambição merece.







