
Por Tatiana Martins, jornalista da G&M News.
A indústria de apostas e cassinos, tanto online quanto presencial, vive hoje uma encruzilhada. Por um lado, cresce a pressão social e regulatória por modelos de negócios mais inclusivos; por outro, há sinais claros de que diversidade e inclusão (DEI) não são mais meros adereços de marketing, mas sim fatores que influenciam o êxito de produtos, satisfação de clientes e ganhos financeiros.
Progresso nos Estados Unidos: dados que não mentem
Dados do relatório ‘Diversity in the Gaming Workforce’ da American Gaming Association (AGA), divulgado em abril de 2023, mostram que um 61% dos trabalhadores da indústria de jogos nos EUA se identifica como pertencente a minorias étnico-raciais, ante 52% do setor de hospitalidade e 42% da força de trabalho nacional.
Mais do que isso: níveis intermediários de gestão e profissionais têm representação de minorias claramente acima da média de outros setores. Em cargos de primeiro/médio nível de gerência, um 45% dos funcionários é minoria; entre profissionais, 43%.
No que toca ao gênero, a força de trabalho do setor é aproximadamente metade feminina (48%), mas a participação feminina declina conforme se sobe na hierarquia da empresa.
Cenário global e liderança feminina
Relatórios do All-In Diversity Project reforçam essa impressão: há progresso real, mas desigual. No índice All-Index 2022-2023, mulheres ocupam cerca de 29% dos cargos executivos em empresas de apostas e cassinos, e ~32% em cargos não executivos.
Embora 46,7% dos funcionários de empresas pesquisadas sejam mulheres no geral, essa proporção cai nos conselhos e diretoria executiva; a maioria das funções de alta liderança ainda é ocupada por homens.
Além disso, as empresas que combinam diversidade de gênero com inclusão, não apenas diversidade numérica, mas participação real em decisões, em cultura, em design de produtos, tendem a entregar produtos mais criativos, experiência de usuário melhor, inovação que reflete perfis culturais distintos. (Embora não haja um estudo exato desse tipo focado só em apostas/cassinos além desses índices globais, os benchmarks sugerem isso como vantagem competitiva).
Desafios persistentes
Mesmo com esses avanços, há obstáculos que ainda minam o potencial total de DEI no setor de cassinos e apostas:
- A desigualdade de gênero em cargos de liderança permanece significativa, com queda na representação feminina em níveis executivos.
- Políticas de diversidade muitas vezes se limitam à contratação, sem garantir inclusão suficiente, ou seja, ouvir vozes diversas, integrar diferentes perspectivas nas decisões de produto e usabilidade, design de jogos, marketing etc.
- Métricas de impacto real nem sempre estão claras ou são monitoradas com rigor: por exemplo, há menos dados públicos sobre como equipes diversas influenciam retenção de jogadores ou conversão de novos clientes.
O contexto brasileiro: oportunidades e lacunas
No Brasil, ainda há escassez de estudos robustos focados oficialmente em diversidade e inclusão no setor de apostas e cassinos. No entanto, alguns índices dão pistas importantes:
- Segundo levantamento da Hibou de 2024, 68% da população brasileira participa de algum tipo de jogo ou aposta; dentre estes, cerca de 8% participa de cassinos online
- Em um estudo do CNC de impacto econômico das bets (apostas esportivas), divulgou-se que entre junho de 2023 e junho de 2024 os consumidores gastaram cerca de R$ 68,2 bilhões com apostas. Os dados revelam também diferenças de gênero no perfil de apostadores: as apostas em cassinos online como “Jogo do Tigrinho” têm público com presença relativamente maior de mulheres, em contraste com apostas esportivas, que são majoritariamente masculinas.
Esses dados indicam que há mercado para produtos que considerem perfis culturais, de gênero e regionais variados, mas também mostram que, até agora, pouca informação pública analisa como diversidade interna entre equipes (desenvolvimento, produto, marketing) reflete-se na criação de jogos ou apostas mais inclusivas no Brasil.
A diversidade e a inclusão não são mais meros slogans no setor de apostas e cassinos: nos EUA e internacionalmente, há evidências de que equipes diversas entregam melhor desempenho, criatividade e maior engajamento. No Brasil, embora a regulamentação recente e os dados de uso mostrem crescimento e audiência variada, falta ainda uma investigação mais profunda sobre DEI dentro das empresas: quem projeta os jogos, quem define as funcionalidades, de onde vêm as vozes que moldam os produtos.
Para que diversidade deixe de ser apenas uma meta ética e se torne de fato parte do DNA estratégico de empresas de apostas e cassinos, será necessário:
- Estabelecer transparência nos times (quem está nos cargos-chave, times de produto, liderança etc.),
- Garantir que diversidade vá além dos números, promovendo inclusão de fato,
- Aplicar métricas de performance ligadas à diversidade (impacto no produto, engajamento, retenção, receita),
- No caso brasileiro, fomentar pesquisas locais para entender preferências diversas e adaptar produtos ao público plural.







