
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
O que significa para a Abragames ter completado 20 anos de trabalho em prol do desenvolvimento do segmento de videogames no Brasil?
Para nós, foi uma data maravilhosa. Completar 20 anos de uma entidade em atividade é fantástico, uma felicidade gigante. A Associação passou por diversos momentos ao longo dessa jornada, começando ali com cinco associados e tentando construir o que seria uma organização de setor, isso lá em 2004, para agora chegarmos em um momento em que contamos com mais de 150 associados e crescendo a cada dia. Um dos nossos trabalhos é contribuir para o setor de uma forma mais concreta, seja através da divulgação dos jogos, tentando construir espaços para os estúdios poderem divulgar, assim como criar oportunidades para conseguirem colaborar, trabalhar entre si e fomentar o mercado com essa conexão. O Brasil Games, que também tem mais de uma década de existência, e que é o programa de exportação em parceria com a Apex Brasil, pode levar o empresário também para participar de negociações internacionais, seja aqui no território, como durante a Gamescom Latam, seja em eventos internacionais, mas também ajudando a preparar esse empresário que quer fazer o voo internacional. Então, para nós, é uma comemoração, um orgulho, especialmente em um ano de marco legal dos games, depois de 20 anos de diversas lutas, buscando melhores condições estruturantes pelo setor.
Como descreveria a evolução do setor nesse tempo e, principalmente, nos últimos 5 anos?
Partimos de alguns poucos estúdios no início dos anos 2000 para mais de 1040 estúdios no território brasileiro hoje. É um salto realmente considerável pensando que o mundo dos videogames é um negócio, e uma arte que está em atividade por uns 40 anos, 50 anos. Nos últimos cinco anos, vimos uma ascensão do mercado produtivo brasileiro, em termos de quantidade de estúdios. Isso mostra o interesse de pessoas querendo empreender no setor, e tendo mais segurança para isso também. Estamos em um ecossistema em amadurecimento, evoluindo e olhando para frente com a perspectiva de recuperação, também muito promissora. Inclusive, no ano passado, fomos reconhecidos pela Gamescom, a maior feira do mercado, como um país homenageado. Os profissionais estão se especializando cada vez mais, as empresas ficaram mais profissionais, aumentando a qualidade da nossa arte, da nossa música, do nosso jogo, da nossa jogabilidade, e assim tudo que compõe um videogame melhorou, a ponto de conseguirmos nos equiparar com as qualidades internacionais e que são referência. Como setor, acredito estarmos fazendo um bom trabalho e em constante evolução. Agora é esperar os próximos cinco ou dez anos para ambicionar e ser um dos top cinco produtores do mundo.
Qual o significado da sanção do Marco Legal dos Games pelo presidente Lula da Silva, em maio, e como isso vai impulsionar os investimentos e empregos no setor?
De forma resumida, a sanção do marco legal significa primeiro um atendimento de demanda de, pelo menos, 20 anos de diversos assuntos que poderiam ter sido endereçados em outras épocas, mas acabaram sendo concentrados depois. São um Marco porque realmente falta uma lei estruturante, ou seja, ele define, por exemplo, um CNAE de utilidade econômica específica para jogos. O videogame passa a ser entendido como videogame. Ele não é nenhum outro tipo de jogo, não é jogo de azar, não é aposta, não é cassino online e não é o jogo que às vezes confundimos com o esporte. O videogame está muito bem definido ali. Isso faz com que o próprio Marco trouxesse definições da cadeia e quanto a regulamentação das profissões que são ligadas diretamente ao mercado de jogos. Isso possibilitou uma diversidade maior também nos modelos de contratação, de oferta de emprego, etc. Abre uma grande janela para podermos trabalhar em um arcabouço inicial de incentivos para que a indústria prospere na base e o Estado possa desempenhar um papel importante no ensino público para a formação no setor de jogos eletrônicos. Uma base bem construída, sólida e incentivada, faz com tenhamos grandes empresas que tracionam e consigam seguir o seu caminho. Hoje, apesar de 27% dos investimentos ainda serem públicos neste setor, principalmente na parte de projetos ou mesmo nas empresas, o restante é uso de dinheiro privado e, assim, provavelmente deve continuar.
Qual é a sua opinião sobre o crescente mercado de apostas nos Esports? Como trabalhar em conjunto com a indústria para oferecer apostas legais e seguras e tomar conta dos menores?
A gente trabalha principalmente na questão de videogame, e isso é um pouco diferente. Ele tem um começo, meio e fim bem definidos e que faz com que se consiga ter um entendimento sobre o que é. O mercado de apostas, pelo que vemos, está sendo regulamentado, foi regulamentado pela lei das bets. Outros mercados, que envolvem outros jogos, como os jogos de azar, que estão seguindo tramitações de possíveis regulamentações. Então, cada aspecto de jogo está seguindo sua tramitação, e seu caminho. Acho que campanhas de conscientização são sempre válidas para tudo, e para videogame também são altamente importantes nesse momento, assim como para todas as indústrias.
Como foi a participação da Abragames na importante feira Gamescom Latam, realizada na semana passada em São Paulo?
A Abragames teve uma participação desde o primeiro evento. A Gamescom Latam é um evento que aterrizou no território brasileiro, sendo uma derivada importante do maior evento de negócios e consumidores de games do mundo, que é Gamescom Cologne. Inclusive, aqui no Brasil, tivemos o Big Festival, um festival que agora está dentro da Gamescom Latam, por mais de dez anos. A Abragames acompanhou o Big Festival, e agora ele ficou de um tamanho tão grande que se juntou à Gamescom para criar a Gamescom Latam. Um importante espaço para fomentar negócios na área de venda, mas que também era relevante ter um evento aqui no território brasileiro, para poder mostrar para o resto do mercado internacional a qualidade dos negócios daqui do país. A Abragames foi responsável por mais de 40 horas de conteúdo da Gamescom Latam. Também tivemos um programa comprador, através do nosso projeto Brasil Games, junto com Apex Brasil, um projeto de sucesso há mais de 10 anos, que trazemos diversos players da indústria global para fazer negócios aqui. Continuamos ampliando essa participação porque é muito importante que a área de negócios seja cada vez mais investida e induzida pela própria Abragames.
Em que outros eventos estarão presentes este ano e quais são seus objetivos futuros?
A Abragames tem uma missão de realmente conseguir participar de todos os eventos diretos e indiretos da cadeia do setor de videogames, incluindo eventos de indústria criativa e de tecnologia. Estamos apoiando encontros nas áreas de entretenimento, cinema, televisão quanto em outras áreas de audiovisual e cultura. Estamos super presentes no Web Summit e no Tech Trends, e em outros eventos do setor, mostrando que os games são essa confluência, essa convergência entre cultura e tecnologia. Temos uma agenda internacional através do nosso programa Brasil Games, em parceria com a Apex Brasil, com um circuito de eventos internacionais para a área de games e para as áreas também coligadas. Então, o Web Summit e outros eventos, também na área de investimento, por exemplo, estão no radar. Hoje, o videogame não é mais só um ambiente de distração, de treinamento, educacional. É também um ambiente social. Então temos que olhar, de fato, para o videogame, para além de um fenômeno cultural e tecnológico, mas como um fenômeno social. Outro objetivo é mostrar que o videogame é, de fato, um ambiente de convergência. Estamos falando de tecnologias de ponta e de outras tecnologias que estão ainda pra vir de forma mais contundente aqui no Brasil, como a realidade virtual, aumentada, mista, o próprio streaming por nuvem, e como será o jogar quando tiver redes ultrarrápidas, como o 6G. Ainda estamos numa implantação do 5G, mas já se começa a falar do 6G, e ele começa a se desenvolver. Então, precisamos entender como é que participaremos dessas discussões, olhando muito também o game como sendo uma ponta de lança de inovação. Temos que ter esse olhar da convergência e como podemos ser esse propulsor, tanto de mostrar a nossa cultura, a nossa cara, mas também de ser esse vetor de inovação tecnológica.







