
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Porque é que 2024 foi um ano especial para os Esports em geral, e para Portugal em particular?
Foi, sem dúvida, um ano marcante para todos nós. Como Diretor de Educação e Investigação Científica, gostaria de começar pela área que me é mais próxima, mas que contou com o contributo essencial do nosso Presidente, Pedro Honório da Silva. Houve um protocolo de colaboração com a Faculdade de Motricidade Humana. Formalizámos uma parceria com esta instituição de referência nacional, integrada na Universidade de Lisboa. Este protocolo é motivo de grande orgulho para a Federação Portuguesa de Desportos Electrónicos, consolidando a ligação entre o conhecimento científico e a prática nos Esports, uma simbiose fundamental e que me é particularmente querida. Também tivemos a publicação do primeiro artigo científico, que foi alcançado com base numa recolha de dados realizada durante as fases finais de um dos nossos campeonatos. O estudo, que explora a visão e o desempenho cognitivo comparando atletas de Esports e futebol, contou com a participação do Professor Doutor Jorge Jorge, uma autoridade mundialmente reconhecida na área da Optometria. Tivemos ainda a honra de estar e ser oradores na Assembleia da República Portuguesa na conferência parlamentar organizada pelo Partido Socialista (PS), cujo objetivo foi aprofundar o conhecimento sobre o ecossistema dos Esports, contribuindo para o debate sobre a sua regulamentação. Existiu também o primeiro projeto de lei, que teve a Iniciativa Liberal (IL) como autores e que foi o certamente um passo na direção certa na regulamentação dos Esports em Portugal. Não poderia terminar sem mencionar o extraordinário desempenho das nossas Seleções Nacionais. A Seleção Feminina de Counter-Strike, composta por D7, Zana, Aida, CatyJones, yuN e liderada pelo treinador HS, alcançou um notável 3º lugar no Campeonato do Mundo em Riade. A Seleção Masculina competiu pouco depois e não quis ficar atrás e foram vice-campeões mundiais, numa seleção composta por snapy, krazy, TMKj, rafaxF e NOPEEj, novamente com o HS como treinador. Quero só deixar uma palavra de agradecimento ao nosso Luís Pedro Duarte que lá esteve e garantiu sempre todas as condições necessárias aos nossos atletas.
Qual é hoje o panorama de desenvolvimento interno dos Esports em Portugal? Qual o papel do Estado na promoção da actividade?
O panorama atual dos Esports em Portugal pode ser descrito como ainda tímido, mas claramente a florescer em múltiplos aspetos. Primeiro, temos a nossa própria responsabilidade e a FPDE foi responsável por organizar diversos campeonatos de distintas modalidades de forma a dinamizar o ecossistema, tais como a Taça de Portugal CoD, Rocket League, Efootball, MLPC Mobile Legends Portugal Championship, mlbb e mlbb female, PUBG Mobile, entre outras. Tivemos também o reconhecimento unanime e público da Assembleia da República pelos resultados alcançados pelas nossas Seleções em Riade, numa votação iniciada pela Iniciativa Liberal (IL) de realçar que o jogador de EA FC, Jafonso, pela conquista do Campenato Mundial, também teve o seu merecido reconhecimento público pela Assembleia da República. Estes projetos de voto de congratulação são significativos não apenas pelo reconhecimento em si, mas porque demonstram a evolução na comunicação entre a comunidade dos Esports e os partidos políticos. O que é natural e faz parte do processo, pois é uma modalidade em crescimento, mas neste momento já começa a fazer sentido pensar seriamente num enquadramento legal e os partidos políticos já começam a ficar atentos. Algo que também me deixa feliz em partilhar é que, em 2024, a FPDE conseguiu reunir com praticamente todos os partidos políticos com assento parlamentar. Estas reuniões permitiram apresentar as preocupações da comunidade, discutir os desafios do setor e explorar como o Estado pode desempenhar um papel mais ativo no seu desenvolvimento. Em termos de analogia, ainda não começamos a andar juridicamente, mas 2024 trouxe já um “gatinhar” na direção certa.
A partir de seus amplos estudos e conhecimentos científicos, como administrar a educação dos jovens que desejam se dedicar aos esportes eletrônicos para que o façam de forma saudável e responsável? Como organizar o trabalho colaborativo entre equipes, universidades e empresas?
Issa é precisamente uma das nossas principais preocupações. Temos de abordar a questão de forma diferenciada do que penso ser a tendência atual. Sabemos que existe um número de horas excessivo em frente aos ecrãs, tal como nós próprios somos também culpados nessa equação porque estamos 8h por dia ao computador no nosso trabalho. O que nós queremos fazer é reeducar e ajudar a estar em frente ao ecrã de forma saudável, em comunidade e, além disso, aprenderem ferramentas que lhes irão ser úteis no mercado de trabalho. Se no exemplo anterior mencionámos as horas excessivas que passamos ao computador, é importante contextualizar que estas são dedicadas a tarefas como programação, utilização de ferramentas como Power BI ou Excel com fórmulas avançadas, edição de fotos e vídeos, entre outras. Então, por que não aproveitar estas competências, repensá-las e integrá-las num programa educativo, em que uma das peças centrais sejam os próprios pais? É exatamente isso que estamos a fazer com o nosso programa educativo de gaming responsável. Penso ser muito positivo trazer os pais para a equação pois assim também entendem melhor a forma como os filhos passam online. Além disso, o Departamento de Investigação da FPDE, que tenho a honra de liderar, tem desenvolvido um ciclo de publicações online nas redes sociais. Estas publicações visam apoiar os nossos atletas, jogadores casuais e até os pais, fornecendo dicas práticas e cientificamente fundamentadas em várias áreas do conhecimento, como psicologia, nutrição e medicina geral. Um agradecimento especial aos profissionais que têm contribuído para estas publicações: Drs. Filipe Cymbron, Samanta Carvalho, Marta Fernandes, Carolina Varela e Fernando Ribeiro.
O que você acha do crescente negócio de apostas esportivas? Como manter jogadores e equipes à margem para que desenvolvam seus talentos e habilidades em torneios sem pressões externas?
É uma excelente questão e um assunto sensível. Ainda este fim de semana, soubemos de mais suspeitas de jogadores de futebol das principais ligas europeias envolvidos com apostas desportivas. Entendemos que o futebol é um meio com muito mais desenvolvimento organizativo e financeiro que lhe permite ter outro tipo de comportamento e que mesmo assim este tipo de situações acontecem. Nos Esports, embora em menor escala, também já foram reportados casos de manipulação de resultados. Contudo, penso que não será necessário reinventar a roda. No futebol, organismos como a FIFA e a UEFA aplicam sanções severas a quem infringe as regras, e acredito que este seja o caminho que também devemos seguir. Mas há nuances importantes que precisamos de ter em conta: a) muitas equipas nos Esports ainda são amadoras, os jogadores não recebem salário ou, quando recebem, este é frequentemente irrisório; b) muitos atletas são jovens, frequentemente menores de idade, e têm um acompanhamento muito inferior ao de um jogador de futebol profissional; e c) o ambiente nos Esports é muitas vezes exclusivamente online, o que dificulta a supervisão direta e abre espaço a vulnerabilidades. Apesar destas dificuldades, existe espaço para as apostas desportivas nos Esports, desde que regulamentadas de forma rigorosa. É essencial que a comunidade dos Esports esteja atenta e vigilante, mas para isso, o apoio político é fundamental. Uma regulamentação clara, abrangente e específica para os Esports e as apostas desportivas relacionadas permitiria criar mecanismos de prevenção e controlo mais eficazes, facilitando a resolução de situações como estas e protegendo a integridade da modalidade.
Como conseguir mais investimentos para fortalecer o crescimento dos esportes eletrônicos? Que projetos a Federação tem para este ano?
É verdade que a questão do financiamento é um problema recorrente nos Esports no cenário nacional. Poderei estar enganado, mas penso que as exceções não chegarão para encher os dedos de uma mão. Além disso, os clubes têm uma finalidade de sustentabilidade financeira, onde a Federação tem uma responsabilidade de apoio e ajuda. Ora, se nesta perspetiva, os próprios clubes têm alguma dificuldade em matérias de financiamento, a Federação também o sente. A nossa missão passa por criar um ecossistema seguro e confiável, onde atletas e clubes possam competir sem incertezas, nomeadamente quanto à garantia de que os prémios monetários serão devidamente entregues. Esta é uma base essencial para fomentar a confiança e o crescimento sustentável do setor. Temos uma obrigação de servir os clubes e uma missão social bem presente. Recordo o “Outubro Rosa”, iniciativa lançada pela FPDE com a ajuda das nossas atletas femininas para a prevenção do Cancro da Mama. Acreditamos que, ao criar um ecossistema saudável e profissional, será muito mais fácil atrair patrocinadores. De uma atividade vista como “sombria” ou pouco clara, os Esports podem ser reconhecidos como uma aposta promissora que tem milhares de jogadores e fãs em Portugal.







