
Por Leticia Navarro, jornalista na G&M News.
Como acredita ser possível construir uma estrutura eficaz de proteção ao jogador, utilizar dados de forma estratégica, otimizar fluxos operacionais e, ao mesmo tempo, estar alinhado ao que estabelece a regulamentação do setor no Brasil?
A criação de estruturas eficazes de proteção aos jogadores e de gerenciamento de riscos só é viável quando as operadoras de apostas incorporam o compliance como premissa estratégica da operação, e não como uma mera obrigação regulatória. No ambiente regulado, as normas já estão postas, e cumpri-las é o mínimo. Mas a verdadeira eficácia nasce quando o compliance deixa de ser um exercício burocrático e passa a ser um mecanismo de inteligência operacional. Cumprir regras é o ponto de partida, não o ponto de chegada ou fronteira para o crescimento. O desafio está em posicionar políticas e controles em contextos específicos, reinterpretando tudo isso à luz da tecnologia, da análise de dados e da dinâmica real do mercado. O compliance tradicional, centrado em formulários e validações manuais, é incompatível com a era da velocidade e dos dados (e não se posiciona mais como ferramenta eficaz de mudança). Vivemos um tempo em que a compreensão dos padrões comportamentais dos usuários, por exemplo, é muito mais relevante que o preenchimento de relatórios e formulários. Por isso, no H2, temos ressignificado o papel do compliance: deixamos de tratá-lo como barreira e passamos a enxergá-lo como propulsor de inovação e eficiência. Implementei um framework de design thinking aplicado ao compliance, que nos permite utilizar dados em todas as etapas, seja do aprimoramento de fluxos internos à criação de métricas de proteção ao jogador. Essa abordagem nos ajuda a entender a aplicabilidade das normas em diferentes contextos e a propor ajustes baseados em evidências, não em percepções. Acredito que a eficácia regulatória e a proteção do jogador surgem quando o compliance é visto não como limite, mas como ponto de partida e os dados se tornam o caminho para transformar obrigações em ferramenta de mudança (para melhor).
Quais as ferramentas usadas pela sua empresa para a proteção do ecossistema iGaming, evitando as ilegalidades?
O uso de inteligência artificial por fraudadores é, sem dúvida, um dos temas mais desafiadores para o ecossistema de jogos e apostas, assim como é para qualquer setor que tenha que lidar com regras e barreiras de identidade e acesso. Felizmente, a própria regulamentação brasileira trouxe barreiras estruturais que já funcionam como bons filtros, como a proibição do uso de contas bancárias de terceiros, a exigência de reconhecimento facial para saques e a obrigatoriedade de verificação contínua de identidade. Esses mecanismos, quando bem aplicados, tornam praticamente impossível a ação de fraudadores sem que tenham total controle sobre a biometria e os dispositivos do usuário real. Mesmo assim, entendemos que a fraude evolui na mesma velocidade da tecnologia, e por isso adotamos uma abordagem híbrida e holística de prevenção. Desenvolvemos internamente nossos próprios modelos de detecção e análise de risco, em paralelo ao uso de soluções de mercado, porque percebemos que as ferramentas disponíveis ainda não estavam preparadas para lidar com a complexidade transacional do nosso setor, apesar de toda a semelhança normativa com o sistema financeiro. Assim, criamos estruturas de monitoramento dinâmico que nos permitem acompanhar jornadas completas e não apenas eventos isolados. Nosso foco não está apenas em identificar irregularidades, mas em compreender o perfil de risco de cada cliente ao longo do ciclo de vida da conta. Esse olhar holístico, da jornada de dados ao comportamento de uso, é o que realmente permite detectar padrões anômalos e reduzir falsos positivos, que hoje são o maior desafio de qualquer operação antifraude. Além disso, encaramos nossas parcerias de forma estratégica, não apenas como relações comerciais, mas como fontes de inteligência compartilhada. Buscamos compreender, em conjunto com parceiros tecnológicos e institucionais, o comportamento de fraude e o mau uso de produtos digitais, promovendo melhorias contínuas que fortalecem todo o ecossistema. O mesmo raciocínio vale para nossos patrocínios e colaborações institucionais, que enxergamos como oportunidades reais de cooperar para o amadurecimento de diversos mercados, especialmente em integridade e proteção de dados. Acredito que a próxima fronteira desse combate será a cooperação efetiva entre o setor público e o privado, com o Governo fornecendo acesso a bases de dados qualificadas e, em contrapartida, recebendo informações sobre padrões de risco e comportamento do mercado. Essa troca elevaria o nível de rastreabilidade e reduziria drasticamente o espaço para a fraude. Em termos operacionais, hoje monitoramos mais de 100 processos distintos, com mais de 10 dashboards e milhares de alertas tratados mensalmente por uma equipe especializada. Esse volume mostra que o compliance e a integridade não são áreas de reação, mas centros de inteligência dentro do H2, e é isso que nos permite manter a segurança da nossa operação e contribuir com a credibilidade do setor.
Em termos de políticas de compliance e integridade das apostas online, qual é a realidade do mercado de apostas brasileiro em comparação com outros territórios? Como enxerga o futuro do compliance no segmento iGaming?
O Brasil vive um momento único: é um país que ingressou no ambiente regulado já observando experiências internacionais. Isso é uma vantagem imensa, porque nos permite construir um modelo de conformidade e integridade que já nasce amadurecido, incorporando aprendizados de mercados como Reino Unido, Espanha e Dinamarca, que evoluíram por tentativa e erro. Ao mesmo tempo, há um desafio muito grande na consolidação do ambiente normativo e legal quanto à correta identificação do mercado irregular. Os clientes precisam enxergar essa distinção, e o Governo também precisa atuar de forma mais efetiva na proteção do mercado regulado, pois é isso que garante um ambiente seguro para os jogadores e preserva a credibilidade do setor. Outro ponto essencial é a cooperação intra e intersetorial. Hoje, a disseminação de conteúdo e marketing de operadoras reguladas e não reguladas é um dos fatores que mais confundem o público e fragilizam a percepção de integridade. Somente se todas as operadoras, provedores, autoridades e entidades esportivas se unirem em torno de um propósito comum de fortalecimento da regulação, é que o nosso “grau” de maturidade evoluirá de forma consistente. O futuro do compliance será marcado pela integração de tecnologia, interoperabilidade e governança compartilhada, no setor de apostas ou em outros. A tecnologia permitirá controles automatizados e análises em tempo real. A interoperabilidade fará possível o diálogo entre operadoras, provedores e Governo. Além disso, a governança compartilhada trará um ambiente em que dados, riscos e padrões de integridade são tratados de forma conjunta. O Brasil tem a chance de se tornar referência global se souber equilibrar controle e inovação. O que nos diferencia é o potencial de implementar um modelo que nasce moderno, digital e orientado a dados. Essa é uma oportunidade histórica para transformar o compliance em um verdadeiro ativo estratégico.
Você foi convidado para o Sports Summit São Paulo 2025 (30-31 de outubro e 1º de novembro de 2025), com cobertura pela G&M News. Qual sua expectativa quanto a este encontro, como será sua palestra e abordagem temática, e qual o alcance e relevância do Brasil estar sediando tão importante evento?
O Sports Summit São Paulo será um marco para a integridade esportiva e para o diálogo entre o esporte e o mercado de apostas. Trata-se de uma oportunidade única de reunir instituições, reguladores, operadoras e entidades esportivas sob uma agenda comum de credibilidade e governança. Entre os destaques da programação do Sports Summit São Paulo, voi participar no dia 1° de novembro na Cúpula Internacional de Especialistas em Apostas Esportivas e Integridade, organizada pela SIGA LATIN AMERICA no marco do Sport Integrity Action Month. Na minha participação, abordarei principalmente o tema da publicidade e o papel das operadoras nesse contexto. Como grandes utilizadores de mídia digital, temos uma compreensão muito clara sobre o poder dos algoritmos e a responsabilidade que vem junto com isso. Faz parte da regulamentação atuar com diligência, entendendo como essas plataformas funcionam e como podemos utilizar os dados de forma ética e transparente. Essa compreensão é essencial não apenas para garantir performance, mas também para assegurar a observância regulatória. O desafio está em equilibrar eficiência de comunicação com conformidade para permitir que o mercado se consolide de forma íntegra e responsável.







