
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Como você definiria o que representa o jogo responsável?
Jogo Responsável, de forma básica, é uma maneira de reduzir os danos que a atividade do jogo pode causar na vida do indivíduo. Isso inclui tanto estratégias individuais, como limites de depósitos, limites de tempo, avaliar seu comportamento no jogo, realizar autotestes com alguma regularidade; como também inclui estratégias operacionais para detectar comportamentos de risco e intervenções, encaminhar corretamente os jogadores em risco, criar conteúdo de conscientização; e inclui a política pública relacionada à redução de danos que o jogo pode causar. O objetivo central é sempre reduzir os possíveis danos que o jogo pode causar ao jogador.
Que análise você faz das políticas de jogo responsável no mercado brasileiro atual?
O que era antes da regulamentação é o pior que podemos ter em termos de Jogo Responsável: liberdade irrestrita a qualquer operadora agir da forma como preferir. Acho que é perceptível o avanço desse tema quando a gente percebe que, hoje, o debate é “até onde vai a responsabilidade da operadora” enquanto antes da regulamentação o debate era sobre “minutos pagantes”, publicidade que induz o jogador a achar que as pessoas enriquecem através dos jogos, incentivos agressivos para o jogador continuar jogando e se jogo pode ou não ser fonte de renda. Embora houvesse várias operadoras que já tinham sua própria política de jogo responsável desde antes da regulamentação, é evidente que ter o mercado tão aberto quanto era, confiando em uma total autorregulação, é completamente danoso. Hoje, quando uma pessoa me procura buscando ajuda, já temos diversas orientações que são frutos da regulamentação: recomendamos fazer a autoexclusão centralizada ou implementar limites visando a redução de danos, conseguimos reverter certos abusos de operadoras juridicamente, a quantidade de propagandas predatórias diminuiu absurdamente. A seriedade do mercado, ainda tenha muito a amadurecer, é totalmente diferente do que víamos antes da regulamentação.
Quais os pontos que você ressaltaria quanto às políticas de jogo responsável conduzidas pelas plataformas de jogos e apostas? Qual é o papel das publicidades junto aos usuários neste sentido?
Acredito que as plataformas estão evoluindo bastante na questão de atendimentos aos apostadores com problemas, formas de encaminhamento mais eficazes e propagandas menos predatórias. Mas ainda temos muito o que avançar na questão preventiva: poucas operadoras atuam, de forma eficiente, na detecção e intervenção no comportamento de risco quando este está ocorrendo, esperando serem contactados pelos usuários para tomarem medidas, o que contraria a Portaria 1.231 da SPA. Jogo Responsável ainda é visto como sinônimo de prevenção à ludopatia, mas os dois não são a mesma coisa. O Jogo Responsável é direcionado para todo e qualquer jogador, pois todos estão suscetíveis a ter danos com a atividade, e todos devem jogar com responsabilidade. A prevenção e combate à jogo problemático já é o último estágio. Estamos falando de pessoas que necessitam orientações mais claras, direcionamentos, encaminhamentos para atendimentos de saúde mental, interlocução com os serviços do SUS e da Raps. As operadoras precisam ter duas políticas separadas, que hoje são vistas como sinônimas: a política de jogo responsável e a política de prevenção à jogo problemático. Os dois não se anulam, se complementam. Não são a mesma coisa.
Como vê os mecanismos do jogo responsável no futuro? Quais aspectos devem ser tomados em conta para um ambiente saudável com um ecossistema seguro para todos, empresas e usuários?
Vejo que, com o apoio da tecnologia, estamos avançando cada vez mais no sentido de ferramentas de inteligência artificial capazes de detectar previamente comportamentos de risco. Na Espanha, está entrando em vigor um modelo onde todas as operadoras usarão o mesmo algoritmo, elaborado pelo Governo, para detectar comportamentos de risco. Acredito que o futuro é o uso da tecnologia para avaliar o comportamento dos jogadores, gerar alertas, e aí termos uma equipe humana para avaliar os alertas e aplicar as intervenções. Temos vários aspectos que devem ser considerados, como: é tão fácil aplicar os limites de tempo e depósito quanto é fácil apostar? Como o meu influenciador se comunica com o público dele em relação aos jogos? Meu público está utilizando as ferramentas de Jogo Responsável, ou já estão indo direto para a autoexclusão? Temos que lembrar que um ambiente seguro para o jogador se reverte em um ambiente estável e previsível para as empresas. Quanto menos danos o setor causar, ou quanto mais possibilidade existir para prevenir esses danos, mais sustentável e estável será o setor.







