
Por Tatiana Martins, jornalista da G&M News.
Você tem uma carreira sólida no campo jurídico e de compliance. Quais aprendizados dessa trajetória mais influenciam hoje a sua atuação no setor de apostas e jogos online?
A experiência acumulada em regulação financeira, proteção de dados, riscos institucionais e prevenção à lavagem de dinheiro mostrou, ao longo da minha trajetória, que compliance e crescimento sustentável são elementos indissociáveis. A prática regulatória ensina que governança não deve ser vista como uma limitação, mas como um pilar de credibilidade e perenidade para qualquer organização. No setor de iGaming, que é naturalmente complexo e sensível, essa visão se torna ainda mais relevante. O ambiente exige método, técnica e experiência sólida em contextos supervisionados, onde a aderência regulatória é fundamental para a operação e para a reputação das empresas. Ter vivência prática em marcos regulatórios como os do Banco Central, do COAF e da ANPD é o que diferencia o compliance estratégico, aquele capaz de traduzir normas em decisões de negócio que protegem a operadora e fortalecem a confiança pública no setor. Essa maturidade técnica é o que permitirá que o Brasil avance de forma sólida, transparente e segura, consolidando-se como uma referência global em governança aplicada ao iGaming.
Você atua diretamente com regulação, governança e privacidade em um setor que está em plena transformação. Quais são hoje os maiores desafios para alinhar inovação e conformidade dentro das operações de iGaming?
O principal desafio do mercado brasileiro, assim como do cenário global, é equilibrar a velocidade da inovação tecnológica com a segurança exigida pelo novo ambiente regulatório da Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda. O setor de apostas está inserido em um ecossistema regulatório integrado, que envolve fluxos financeiros (PIX) supervisionados pelo Banco Central do Brasil, o tratamento de dados pessoais sob a regência da ANPD e a integração operacional com plataformas de jogos. Esse contexto demanda controles robustos, gestão de riscos contínua e total aderência às normas de compliance regulatório e de proteção de dados. A conformidade, portanto, deve ser encarada não como um obstáculo à inovação, mas como um instrumento essencial de segurança jurídica e sustentabilidade para o negócio. É fundamental garantir rastreabilidade, prevenção à lavagem de dinheiro, governança de dados pessoais e transparência operacional em todas as etapas do ciclo de apostas. Esse equilíbrio só é possível com profissionais que possuam experiência efetiva na aplicação das normas regulatórias. Na minha visão, o exercício do compliance em ambientes regulados exige mais do que conhecimento teórico: requer vivência técnica e compreensão prática das normas da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF), do COAF, do Banco Central e da LGPD. Trata-se de um contexto que vai além da mera conformidade conceitual, envolve integração com os órgãos reguladores, visão de risco e sensibilidade operacional. Esses fatores distinguem o compliance regulatório dos programas corporativos tradicionais, exigindo decisões técnicas, accountability e a capacidade de traduzir as exigências legais em práticas de governança efetivas e aplicáveis ao negócio.
A regulamentação federal das apostas no Brasil trouxe novas exigências para as operadoras. Na sua visão, quais pontos da lei exigem mais atenção imediata das empresas para garantir segurança e sustentabilidade no mercado?
A regulamentação federal das apostas representa um verdadeiro divisor de águas para o Brasil, ao trazer mais transparência, profissionalização e responsabilidade social ao setor. Entre os pontos que exigem atenção imediata das empresas, destaco a segregação de contas e rastreabilidade financeira, conforme determina a Portaria MF nº 722/2024, que estabelece controles rigorosos para separar os recursos dos jogadores dos recursos operacionais das empresas. Outro aspecto essencial é a implementação de programas de integridade e de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD/FT), estruturados nos moldes do sistema financeiro nacional. Isso implica políticas bem definidas, controles internos robustos, governança efetiva e comunicação tempestiva de operações suspeitas ao COAF. A proteção de dados e a segurança da informação também merecem atenção prioritária, com aplicação rigorosa da LGPD e da Portaria SPA nº 1.231/2024, além da adoção de padrões ISO e de uma matriz de risco adequada ao setor, garantindo finalidade legítima, transparência e governança tecnológica. Por fim, é fundamental fortalecer as práticas de jogo responsável e de prevenção a riscos comportamentais, com o uso de ferramentas de autoexclusão, monitoramento contínuo e definição de limites personalizados. Essas medidas formam o alicerce de confiança, segurança e longevidade do mercado de apostas, contribuindo para a construção de um ambiente de negócios íntegro, sustentável e alinhado às melhores práticas internacionais.
O compliance deixou de ser apenas uma obrigação e passou a ser diferencial competitivo. Como você tem trabalhado para transformar governança e privacidade em elementos estratégicos da marca?
O Brasil vive um momento de consolidação da governança como um verdadeiro ativo estratégico. O compliance regulatório deixou de ser apenas uma obrigação e passou a ocupar um papel central na construção da credibilidade de operadoras e investidores, tanto nacionais quanto internacionais, tornando-se um importante diferencial competitivo. Atualmente, as empresas que mais se destacam são aquelas que tratam compliance, privacidade e integridade como parte de seu posicionamento institucional, e não apenas como um requisito normativo. Essa mudança de paradigma reforça que a governança é também uma ferramenta de fortalecimento da marca e de sustentabilidade do negócio. Os pilares dessa evolução envolvem a construção de uma cultura organizacional de integridade, sustentada por capacitação contínua e engajamento efetivo da alta liderança; uma gestão de riscos baseada em evidências, que cruza dados financeiros, reputacionais e operacionais; e a transparência com prestação de contas, apoiada em trilhas auditáveis e aderentes aos padrões do Banco Central, COAF e Secretaria de Prêmios e Apostas. O resultado desse processo é a criação de um ambiente empresarial mais confiável, atrativo para investidores estrangeiros e alinhado às melhores práticas internacionais de integridade e governança.
Como você enxerga a evolução do papel do líder em compliance regulatório no Brasil? O que será essencial para acompanhar a maturidade do mercado de iGaming nos próximos anos?
O papel do líder em compliance está passando por uma profunda evolução. Hoje, mais do que um guardião de regras ou uma “segunda linha de defesa”, esse profissional atua como um verdadeiro agente de transformação regulatória e institucional, funcionando como elo entre a inovação, o negócio e as autoridades supervisoras. No novo cenário do mercado brasileiro de apostas, sob a supervisão da Secretaria de Prêmios e Apostas – Ministério da Fazenda, será essencial contar com profissionais de visão multidisciplinar e corporativa, capazes de compreender as dinâmicas do sistema financeiro, da proteção de dados e das políticas globais de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD/FT). O compliance regulatório difere do compliance corporativo tradicional e do jurídico, podendo inclusive ter conflito de interesses com o legal, pois exige leitura técnica das normas, relacionamento constante com o regulador, comunicação colaborativa com as áreas operacionais e gestão de riscos complexos em tempo real. O futuro do setor dependerá de lideranças preparadas para esse novo patamar de exigência técnica, profissionais com sólida vivência regulatória e capacidade de construir ambientes de integridade sustentados por evidências, tecnologia e ética. Essa atuação deve estar apoiada em relatórios robustos, indicadores consistentes, análises de lacunas (gap analysis) e monitoramento contínuo. Somente assim o Brasil poderá alcançar plena maturidade regulatória e consolidar-se como uma referência global em integridade e governança no mercado de iGaming.







