
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Como foi criada a ABC-Bet, e de quem foi a ideia? Qual o alcance e a atuação da entidade, e por quem é composta atualmente?
A Associação Brasileira de Conformidade, Boas Práticas, Ética e Transparência nas Apostas Esportivas começou a sair do papel em 26 de setembro de 2024, Dia do Compliance Officer, data simbólica para quem acredita que ética, governança e responsabilidade devem estar na base do mercado de apostas. A ABC-Bet nasce para ser uma associação efetivamente independente e técnica, atuando como um hub ético e plural. Atuo com orgulho como idealizador e vice-presidente, com foco em integridade, relações institucionais, educação e posicionamento estratégico. A ideia surgiu a partir de uma provocação minha, diante da inquietação com os riscos e oportunidades do setor no Brasil. Na primeira reunião, houve sinergia imediata com Malu Lima e Márcio Ferretti, profissionais com trajetórias complementares em áreas como futebol, mercado financeiro, compliance, riscos e regulatórios. Desde então, a ABC-Bet vem se estruturando com agilidade e profissionalismo. Ainda em 2024, firmamos parceria com a BRA Certificadora para desenvolver uma certificação robusta para operadoras de apostas, com três níveis e foco em boas práticas, benchmarks internacionais e autorregulação. Também avançamos em capacitação profissional, com cursos e treinamentos, e na criação de comitês temáticos liderados por especialistas. A chegada de Glades Chuery como Diretora de Inovação & Novos Negócios trouxe ainda mais visão estratégica, especialmente em inteligência artificial e transformação digital. O lançamento oficial será em agosto de 2025, com produtos, plano de negócios e comunicação prontos.
Na sua visão e segundo a perspectiva da entidade, o que significa para o mercado de jogos e apostas no Brasil o fato de a regulamentação ter sido finalmente aprovada?
A regulamentação demorou a sair. Durante anos, o mercado operou à margem da formalidade, com pouca clareza jurídica, ausência de fiscalização e riscos não endereçados, tanto para operadoras quanto para apostadores. A aprovação da Lei 14.790/2023, portanto, representa um marco histórico. Mais do que permitir a atuação legal de empresas, inaugura-se uma nova fase da responsabilização, transparência e construção de um ambiente mais seguro e confiável para todos os envolvidos. Para a ABC-Bet, tanto a Lei quanto as portarias da SPA são essenciais, mas representam apenas o início da jornada. A norma, por si só, não resolve desafios estruturais como integridade esportiva, prevenção à lavagem de dinheiro, publicidade ética, proteção de dados, formação de profissionais e, especialmente, jogo responsável e manipulação de competições. O Brasil tem agora a chance de fazer diferente: aprender com experiências internacionais e construir um modelo sustentável e equilibrado. Isso estabelece mais que conformidade legal; exige boas práticas, autorregulação consistente e diálogo entre setores. A ABC-Bet se propõe a ser aliada nesse processo, promovendo certificações, conteúdos formativos, diretrizes técnicas e ponte entre setores público e privado e a sociedade. Regulamentar é essencial. Mas o verdadeiro diferencial estará em como vamos implementar, fiscalizar, educar e evoluir. É justamente aí que atuamos: como um hub plural e comprometido com a maturidade do setor.
Por que existe um crescimento atual na manipulação de resultados no esporte? Quais seriam as medidas recomendadas e políticas de âmbito jurídico para impedir e punir estas ilegalidades?
A manipulação de competições sempre existiu. Hoje, com mais monitoramento e responsabilidade, muitos casos vêm à tona; grande parte reportada pelas próprias operadoras, o que mostra que o setor pode ser aliado da integridade esportiva. A minha maior preocupação recai sobre atletas de base, de clubes menores e de modalidades menos mediáticas, árbitros e dirigentes com pouca estrutura e visibilidade, alvos fáceis de redes criminosas. Embora o futebol concentre os holofotes, esportes como Esports e tênis também exigem atenção. A atuação das federações é fundamental nesse processo. Enfrentar o problema exige mais que regulação: é preciso educação, prevenção e cooperação real. É imperativa a adoção de ações de capacitação e conscientização para atletas, árbitros, dirigentes, influenciadores e familiares. Também defendo medidas urgentes como tipificação penal específica, protocolos obrigatórios de integridade, programas permanentes de formação ética, canais anônimos e seguros de denúncia e cooperação entre operadoras, federações, meios de pagamento e autoridades. Infelizmente, parte da opinião pública e mídia não especializada ainda enxerga as apostas como vilãs, desconsiderando dados e a realidade de um país com baixa educação financeira. Apostar ou jogar é entretenimento, mas deve ser tratado com muita responsabilidade, não como bode expiatório.
Olhando para o futuro, quais são as suas expectativas para o desenvolvimento de um mercado brasileiro de jogos em que haja um esforço conjunto entre os setores público e privado? Além disso, vê alguma nova tendência?
O sucesso do mercado de apostas no Brasil dependerá da articulação entre Governo, setor privado e sociedade. A regulamentação foi só o primeiro passo. A construção de um setor sustentável exige envolvimento ativo de operadoras, reguladores, atletas, mídia, federações, investidores, consumidores e entidades independentes como a ABC-Bet. Acredito que o Brasil pode desenvolver um modelo de referência, com segurança jurídica, inovação, integridade e responsabilidade social. Na ABC-Bet, já estamos finalizando uma plataforma robusta com selos de certificação, programas formativos, diretrizes técnicas e parcerias institucionais, tudo adaptado à realidade brasileira. Falta pouco para que isso esteja disponível, junto à possibilidade de pessoas físicas e jurídicas se associarem à causa. Entre as tendências, vejo a valorização da reputação das operadoras; uso de IA para prevenir fraudes; pressão por publicidade ética; foco total em educação financeira; e o fortalecimento da cooperação internacional. O mercado também exigirá profissionais mais preparados, com experiência em gestão de riscos, governança e comunicação em ambientes de alta complexidade. A maturidade do setor estará ligada a capacidade de formar lideranças, fiscalizar, corrigir e evoluir continuamente.







