
Por Leticia Navarro, jornalista da G&M News.
Quais as características principais da APVP, sua história, missão e objetivos primordiais?
Desde o início da sua atividade em 2022, a APVP tem desempenhado um papel crucial na compreensão das necessidades das empresas e na unificação da sua voz. Durante este período, a APVP estabeleceu-se como o principal interlocutor da indústria junto das entidades interessadas, sejam governamentais ou não. A Associação foi fundada com o objetivo de acelerar o crescimento da indústria de videojogos em Portugal, atrair multinacionais para o país, aproximar os agentes do sector e criar um ambiente favorável para novos empreendedores. Em apenas dois anos, a APVP conseguiu marcar presença em diversos fóruns internacionais, tanto no modo físico quanto online, estabelecendo contactos com empresas e associações internacionais para atrair investimentos e profissionais, fortalecendo assim a posição de Portugal no panorama global. Promovemos também a indústria junto dos estudantes e recém-graduados, realizando palestras nas escolas superiores e facilitando o contacto para estágios curriculares e profissionais, além de apoiar ativamente eventos locais, fomentando o crescimento e a coesão da comunidade de videojogos em Portugal. Até ao momento, estes esforços foram pontuais; neste momento, estamos a procurar sistematizá-los.
A presença portuguesa da APVP na recente Game Developers Conference (GDC) demonstrou a ascensão de Portugal na esfera mundial da indústria dos videojogos. Como você explica esta relevância internacional ao longo do crescimento do sector no país até os dias de hoje?
O balanço desta participação no palco internacional é extremamente positivo. A estreia de um pavilhão de jogos portugueses, uma colaboração entre o eGamesLab e a APVP, possibilitou à comunidade portuguesa de produtores de videojogos exibir o seu talento e criatividade a nível mundial. Além da forte representação no pavilhão, com 20 empresas presentes no evento, Portugal destacou-se em diversas frentes durante o evento. Este marco reafirma o esforço contínuo da indústria de videojogos em Portugal para se tornar um centro de excelência global. Quando organizadas consistentemente, as delegações nacionais onde várias empresas se juntam para mostrar os seus produtos e serviços permitem, por um lado, reforçar a internacionalização da indústria portuguesa e, por outro lado, estabelecer o nosso país como receptivo a investimento estrangeiro.
As ferramentas de IA andam de mãos dadas com a indústria do gaming, desde nos testes de qualidade dos produtos, nos cenários com personagens virtuais, até mesmo nos processos de atualização de clássicos (remaster) para correrem nas plataformas atuais. Conte um pouco como você vê esse desenvolvimento, proporcionando aos estúdios criarem videogames diferenciados.
A Inteligência Artificial tem sido utilizada em ferramentas que impactaram a produção de videojogos bem como as restantes operações dentro dos estúdios. Como qualquer ferramenta, existem bons e maus exemplos da sua utilização, mas é inevitável que a sua adopção continue a aumentar, provocando alterações no funcionamento dos estúdios e, por consequência, nos videojogos lançados. Alguns dos associados da APVP têm transferido conhecimento da academia para indústria de videojogos ao aplicarem metodologias e algoritmos em soluções inovadoras. Um desses casos é a Anybrain, que oferece uma solução capaz de analisar e compreender as interações em jogos multiplayer e, recorrendo a Machine Learning, identificar bots, cheaters e outros comportamentos anormais em jogos de computador, garantindo assim um ambiente de jogo justo para todos os jogadores. Adicionalmente, a DIDIMO desenvolveu um solução chamada ‘Popul8’, capaz de automatizar a criação de múltiplas personagens 3D de alta qualidade em grande escala. A sua ferramenta não compromete a expressão criativa dos produtores de jogos ao mesmo tempo que otimiza os custos de produção e acelera o tempo de lançamento no mercado. Por fim, destacaria o trabalho da FRVR, que aproveita o poder da IA generativa para simplificar a criação de jogos. A solução oferece também uma variedade de canais de distribuição, ajudando os produtores a validar conceitos com rapidez. O impacto da IA na indústria é muito mais vasto do que o que foi descrito aqui, mas estes são alguns dos exemplos de empresas portuguesas que entregam soluções que utilizam IA na sua génese para melhorar as operações do dia-a-dia dos produtores de videojogos.
Sobre a indústria de videogames no Brasil, conhece algo e tem alguma opinião a respeito? Alguma comparação e diferencial importante quanto ao sector em Portugal?
Existem alguns factores que certamente ajudam a diferenciar o sector em Portugal e no Brasil, como por exemplo a escala do mercado interno, os apoios públicos ao sector, a facilidade de acesso a tecnologia como devkits, a proximidade com outros mercados. Todavia, apesar de claras diferenças nos dois sectores, é importante destacar como os dois ecossistemas podem ajudar-se mutuamente. Por exemplo, a relevância da indústria brasileira no mercado global de videojogos e a constante ambição de crescer de alguns dos seus agentes pode ser benéfica também para Portugal. Ainda este ano, observámos a abertura do novo escritório da Kokku em Lisboa, após ter sido recentemente adquirida pelo grupo OV Entertainment. Temos outros estúdios brasileiros que procuram encontrar o seu espaço no mercado europeu, sendo Portugal uma óbvia porta de entrada, e, na APVP, temos procurado apoiar essas entidades neste processo de softlanding. Também é importante destacar o trabalho da Abragames, a homóloga da APVP no Brasil, que tendo celebrado 20 anos de existência, desenvolve uma tarefa extremamente relevante desde a sua fundação. Pelos óbvios laços entre os dois países, temos uma relação próxima com a Abragames e procuramos cooperar em diversas iniciativas. É evidente o impacto de uma entidade que ajuda na orquestração destes esforços a nível nacional, algo que não existiu em Portugal durante algum tempo.
Quais são os desafios e perspectivas para o futuro?
Atualmente, enfrentamos alguns desafios significativos, como a falta de apoios públicos específicos para a indústria dos videojogos e a escassez de profissionais seniores. Além disso, questões comuns a muitos sectores europeus, como o peso da tributação, também afetam negativamente a competitividade das empresas locais. Estes fatores limitam o crescimento da indústria e a atração de novos talentos e investimentos. Contudo, as perspectivas para o futuro são otimistas. Acreditamos que, com a expansão contínua do sector e esforços conjuntos para enfrentar estes desafios, será possível criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento de videojogos em Portugal. A APVP vê um futuro promissor, com oportunidades de crescimento e inovação, tanto no mercado nacional como no internacional, especialmente se as questões atuais forem resolvidas de forma eficaz.
Que projetos estão na agenda da APVP para o resto de 2024?
De 21 a 25 de agosto de 2024, Portugal vai estar representado na Gamescom em Colónia, uma das maiores conferências de videojogos. À semelhança da Game Developers Conference, a parceria entre a APVP e o eGamesLab, possibilitará a presença na feira de um conjunto de empresas portuguesas com um pavilhão Portugal Games. Este pavilhão contará com a presença de vários associados da APVP e outros estúdios portugueses. Para os profissionais da indústria, a Gamescom é uma paragem obrigatória, sendo uma excelente oportunidade para expandir a importância das empresas portuguesas no mercado global. Adicionalmente, seguindo o sucesso da Gamiberica, uma iniciativa conjunta da APVP, Indie Dev Day, Indie X e Unicorn Factory Lisboa, vários estúdios indie portugueses vão estar em setembro em Barcelona a divulgar os seus mais recentes projetos no IndieDevDay.








