
Por Tatiana Martins, jornalista na G&M News.
Você atua diretamente na condução de iniciativas globais de integridade no desporto. Quais considera serem hoje as prioridades estratégicas da SIGA e como sua função contribui para impulsioná-las?
Como Vice Chair da Sport Integrity Global Alliance (SIGA), considero que as prioridades estratégicas se centram no reforço da gestão ética e responsável no desporto, no combate à corrupção, na proteção da saúde, dos direitos e do bem-estar dos atletas e na sustentabilidade do ecossistema desportivo. A minha função passa por contribuir para a definição de orientações estratégicas, promover a cooperação entre entidades desportivas e assegurar que os princípios de integridade se traduzem em práticas concretas. A experiência como CEO da Trueclinic permite-me acrescentar uma visão aplicada e orientada para resultados, reforçando a credibilidade e o impacto real destas iniciativas.
Portugal tem se destacado internacionalmente por adotar padrões elevados de governança e integridade desportiva, incluindo iniciativas lideradas pela Liga Portugal e pela Fundação do Futebol. Na sua avaliação, o que faz do país um exemplo global nessa área?
Portugal tem-se afirmado como um exemplo internacional na área da integridade esportiva pela combinação entre visão estratégica, compromisso institucional e capacidade de execução. Existe um alinhamento claro entre entidades como Federação Portuguesa de Futebol, Liga Portugal, Fundação do Futebol, associações, sociedades anónimas desportivas, clubes e parceiros públicos e privados na adoção de padrões elevados de gestão, transparência e ética. A título de exemplo, a Liga Portugal foi a primeira liga profissional a ter a certificação SIRVS de Boa Governação da SIGA, é certificada pela ISO 37001, sistema anticorrupção, promove campanhas contra o Match-Fixing, em articulação com a Federação e o Sindicato de Jogadores, cria campanhas e grupos de estudo para a integridade física dos jogadores, entre várias outras iniciativas. A aposta consistente em programas de integridade, formação e prevenção, aliada a uma cultura de cooperação e abertura ao escrutínio internacional, permite que Portugal não só acompanhe as melhores práticas globais, como muitas vezes as antecipe. Essa abordagem estruturada e colaborativa reforça a credibilidade do sistema desportivo português e posiciona o país como uma referência global nesta área.
O crescimento do mercado desportivo, das apostas e do entretenimento digital aumenta a complexidade das ameaças à integridade. Que tipo de cooperação internacional você acredita ser fundamental para que organizações, governos e entidades desportivas atuem de forma coordenada e eficaz?
O crescimento do mercado desportivo, das apostas e do entretenimento digital exige uma resposta internacional cada vez mais coordenada, articulada e estruturada. É fundamental reforçar a cooperação entre organizações desportivas, governos, reguladores, forças de segurança, operadoras de apostas e setor tecnológico, assente na partilha de informação, harmonização regulatória e mecanismos conjuntos de prevenção e resposta. A troca de dados em tempo útil, a definição de padrões comuns de compliance e integridade e o desenvolvimento de plataformas de cooperação transnacional são essenciais para enfrentar ameaças que são, por natureza, globais. Só através de uma abordagem colaborativa, baseada na confiança e na responsabilidade partilhada, será possível proteger a integridade do esporte de forma eficaz e sustentável.
O Sport Integrity Action Month reforça a mobilização internacional em torno da ética, transparência e boa gestão no esporte. Como a SIGA planeja aprofundar esse movimento nos próximos anos e ampliar o impacto dessa agenda no cenário global?
O Sport Integrity Action Month afirma-se como uma iniciativa global de mobilização e ação concreta em torno da integridade, transparência e boa gestão no esporte. Nos próximos anos, a SIGA pretende aprofundar este movimento reforçando o envolvimento de governos, organizações desportivas, setor privado e sociedade civil, promovendo compromissos claros, mensuráveis e alinhados com os Standards Universais de Integridade no Esporte. O foco estará em transformar sensibilização em implementação efetiva, através de formação, partilha de boas práticas, cooperação internacional e mecanismos de responsabilização. Ao escalar esta abordagem de forma consistente e colaborativa, a SIGA procura ampliar o impacto global da agenda da integridade e consolidá-la como um elemento central e permanente do desporto moderno.
Considerando os avanços recentes em Portugal, como a certificação SIRVS e o comprometimento público de clubes e instituições, quais são os próximos desafios para consolidar uma cultura de integridade que seja sustentável e replicável por outros países?
O próximo desafio passa por garantir que estas práticas se consolidem de forma sustentável e sejam adotadas de forma abrangente em todos os níveis do desporto. Isso implica fortalecer capacidades internas de gestão e compliance nos clubes e associações, aumentar as sociedades desportivas e clubes certificados pela SIGA, desenvolver programas contínuos de formação e avaliação, garantir transparência e prestação de contas consistentes e promover uma cultura em que integridade seja um valor quotidiano e não apenas uma exigência formal. A replicabilidade em outros países exige ainda adaptação contextual, partilha de experiências, ferramentas transversais e universais, e uma cooperação internacional que facilite a implementação de modelos testados e eficazes.







